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A boneca que reinventou a vida

– Come logo, danada! Se o prato não tivé vazio em cinco minuto, a cinta é que vai comê! – Disse Lis à Clarice, sua boneca.

Clarice era linda e feita de pano. Morena cor de pãozinho francês, cabelos cor-de-rosa com uma florzinha azul. Lis gostava muito dela. Clarice também gostava de Lis, e fazia de tudo para vê-la feliz. Nunca chorava, jamais fazia birra. Não ficava doente nem dava trabalho. Muito pelo contrário: estava sempre com um belíssimo sorriso no rosto, costurado à mão. Lis não tinha nenhum motivo para reclamar.

Só que Clarice sentia-se culpada, pois Lis brigava muito com ela. A boneca queria sempre ver sua dona feliz, e não entendia o que estava fazendo de errado. O que Clarice não sabia é que Lis sentia-se igualmente culpada. Sua mãe fez uma viagem pra muito longe no mesmo dia em que ela nasceu, e seu pai ficou cuidando dela sozinho, da maneira que entendia ser melhor.

Mas Clarice era esperta e aprendia rápido. Um dia, seus olhos de pérola negra viram o pai tratando Lis da mesma forma que Lis a tratava. Percebeu logo que nada daquilo era culpa nem de Lis, nem de Clarice. E, provavelmente, nem do pai. Eles eram assim porque assim os ensinaram, sem jamais imaginar uma maneira melhor de ser.

Clarice decidiu modificar essa situação. Iria bolar um plano para salvar a si, a Lis e ao pai dela. Numa manhã fria de inverno, enquanto todos estavam dormindo, saiu pela janela do quarto da casa térrea onde moravam, levando algo que havia pegado no quartinho de bagunça da casa. Caiu no jardim e passou por entre as grades do portão com facilidade, ganhando a rua e seguindo para bem longe, até desaparecer de vista. Quando Lis acordou, chorou muito por não encontrar sua companheira.

– Clarice foi embora! – gritava. – Não gosta mais de mim!

O pai ficou bravo e mandou-a calar-se. Lis parou de chorar por fora, para só chorar por dentro, o que dói bem mais. Mas o que eles não sabiam é que o plano de Clarice era realmente muito bom. Ela voltou assim que o dia terminou e a lua cheia clareou o céu, trazendo consigo um embrulho bem grande, amarrado às costas. Lis e seu pai já estavam na cama e nada viram.

No outro dia, ao acordar, qual a alegria de Lis ao ver sua amiga de volta. Abraçou-a e beijou-a muito, prometendo nunca mais brigar com ela. Foi então que as duas escutaram um choro baixinho vindo do quarto do pai. Foram se aproximando e, pelo vão da porta entreaberta, viram-no sentado na cama. As mãos escondiam o rosto e as lágrimas. No chão, o papel do embrulho que Clarisse trouxera noite passada.

Clarisse sorriu ainda mais. Lis aproximou-se e abraçou a perna do pai, que assustou-se com o gesto, para em seguida abraçá-la de volta. Ficaram assim um bom tempo. Ao lado deles, sobre a cama, havia um retrato emoldurado. Nele, a mãe e o pai de Lis abraçados. Ela, grávida. Ambos felizes em algum jardim onde o sol brilhava generoso. A ponta do dedo do pai tinha tinta azul, na mesma cor da palavra pintada na barriga da mãe. Um único substantivo que havia sido esquecido e, agora, finalmente recordado e transformado em verbo: Amor.

 

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Sobre Edson Carvalho

Edson Carvalho é músico, poeta, ator e contista com inspiração nas belezas da natureza, nos exemplos de simplicidade, alegria e gratidão amplamente encontrados em nosso povo, mas que passam, muitas vezes, sutis, discretos e despercebidos aos nossos ocupados olhos.

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