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A escola do futuro

Cohab 5, 5 horas da tarde. Enfim, chegou o grande dia, a comunidade está reunida para receber a nova diretora. Todos entraram e o portão se fechou. Corre o boato de que a última diretora foi expulsa à bala e a polícia sempre chega atrasada, ninguém cagueta ninguém! Tenho a impressão de que existe um código de silêncio na comunidade, e ai daquele que se rebelar e abrir a boca.

O pátio estava um alvoroço total, um barulho infernal. Lá fora, Nego Mel, com os olhos cheios de maldade e pronto para decolar com seu aviãozinho do tráfico. De repente, ele pula o muro e vai direto para a sala da diretoria.

– Cadê a nova diretora? Tenho um recadinho especial pra ela!

A professora-arquiteta reconheceu Nego Mel e disse:
– Menino, por que você parou com os estudos?
– Estudá prá quê pissora? Tô trabaiano pro tráfigo!! Vim dexá esse bilheti prá nova diretora.

Colocou-o em cima da mesa e saiu voando. De repente, entra Dona Celeste, a nova diretora e lê o bilhete:
– Sou o Rei, liga prá mim ainda hoje!! Temo muito que conversá!!

Ela discou lentamente número por número, parecia ganhar tempo para pensar no que falar.
-Alô? Aqui é a Celeste, a nova diretora, pois não?!
– Tudo bem com a senhora? Eu quero fazê um acordo, eu comando a área e quero contribui com o progresso da comunidade.

-Sim, claro, vamos nos unir. Apareça aqui vamos conversar pessoalmente. Em seguida desligou o telefone. 5 anos se passaram. Dona Celeste continua sendo a diretora, a escola está transformada, tem uma excelente biblioteca, os
alunos fazem fila para lancharem, tudo muito limpo pelos corredores e salas. A escola foi toda reformada e adaptada para receber a comunidade nos finais de semana, para participarem do grupo de teatro, fazer aulas de dança, enfim,
a paz reinou durante os últimos 5 anos.

Fevereiro, ano novo, tudo novo, fiquei sabendo que dona Celeste foi substituída, o Rei foi morto por policiais, Nego Mel foi preso por tráfico de drogas e todos os professores foram substituídos. Estamos em março, a escola foi invadida, quebraram tudo, o teatro virou um lixão, as quadram detonadas, tudo pichado, os alunos parecem zumbis.

Outro dia no supermercado encontrei a professora-arquiteta que me disse:
– Essa escola nunca mais será a mesma sem a presença de Dona Celeste! Soube que ela foi morta na porta da casa dela com 5 tiros na cabeça!

Fiquei pensativo, lembrei-me do bilhete em cima da mesa, do telefonema, e o acordo fechado a sete chaves, que só Dona Celeste e o Rei poderiam esclarecer.

Cansado, voltei para casa e fui dormir.

Sobre João Antunes

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