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Causo de política literária

Certa noite, João estava sentado no portão de casa, próximo do bar, quando um homem, caucasiano de olhos azuis, se aproximou para uma conversa rápida. Foram várias cervejas e caipirinhas. Centenas de divagações sobre os poetas, William Butler Yets e Carlos Drummond de Andrade. Um dizia que Itabira era longe de tudo e de todos. Já o outro, exaltava o país, pelo fato de  não existir nenhuma cobra por lá e prosseguiu:

– Meu poeta favorito tem lirismo europeu!

João, morador das bordas, estudante de língua portuguesa e Inglesa, sussurrou:

– Meu poeta: teus ombros suportam o mundo, mesmo com uma pedra, no meio do caminho!

O Irlandês não sabia que o amigo brasileiro, mal se alimentava, dormia pouco e andava quilômetros a pé, em busca de trabalho. Para João, a realidade era dura, como uma rocha Itabirana, calcada na terra.

João declamou para o gringo em voz alta:

– No meio do caminho  tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho…

O Irlandês não entendeu muito bem o significado metafórico e esbravejou:

– Na Europa ninguém conhece esse tal de Drummond.

João sentiu-se ofendido:

– Drummond não precisa da Europa!  Basta que Minas Gerais o conheça!!

A conversa gerou irritações para ambos os lados. João abriu o portão da casa e entrou soltando um grito:

– Chega de política literária!

O Irlandês retrucou mais alto:

– Então quem é o melhor?  O poeta do terceiro mundo, ou, o poeta do primeiro mundo?

A conversa virou a madrugada.  Ninguém saiu vencedor, mas o Irlandês parecia retirar ouro do nariz, ao recitar cada verso de Yeats:

– Down by the salley gardens

My love and I did meet;

She passed the salley gardens…

Embora, cansado de tanto beber cerveja e caipirinha, entrou no carro, bruscamente. Em seguida saiu cantando pneus, Raposo Tavares a fora!

Sobre João Antunes

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