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Esse povo do interior…

Quem circula pelas estradas e cidades do país está sujeito a experiências curiosas. Se essas viagens forem de moto, outras possibilidades se descortinam, afinal, o tema “moto” socializa e aproxima muitas pessoas. Ao visitar uma região do interior de São Paulo nesta semana, resolvi conhecer uma cidade vizinha a que estava hospedado. Circulava com calma por suas ruas à procura do centro, quando percebi que um carro me acompanhava. Como todo cidadão desconfiado dos grandes centros, passei a prestar maior atenção naquele veículo. Ao diminuir minha velocidade, tive a impressão que ele fizera o mesmo; assim, diminuí ainda mais minha velocidade e obriguei-o a ultrapassar. Segui meu caminho em busca de uma área mais movimentada, perto do comércio central, que toda boa pequena cidade brasileira tem. De repente, um semáforo fechado faz-me emparelhar com o carro que me seguira minutos antes. O vidro se abre e um senhor, um pouco acima do peso, barba por fazer, usando óculos, bermuda e camiseta, faz a abordagem:

– Tá procurando um lugar específico?
– Só tô passeando. 
– Você é de São Paulo? 
– De Osasco, mas tô instalado na região. Quero ir ao centro. 
– Ah tá… Legal! O centro começa aqui e se estende por essas quadras a sua frente (falou com um sorriso no rosto e gesticulando mãos e braços).

O semáforo abre e nos despedimos com os veículos já em movimento:

– Obrigado e boa sorte! 
– Valeu! Tamo junto!

Uma quadra adiante, outro semáforo vermelho. Novamente emparelhados e já sem a desconfiança de minha parte. Apontando para a moto, o cidadão comenta:

– Saudade disso aí… 
– É mesmo? Anda de moto? 
– Andei por 34 anos! 
– Uau! Passeou bastante? 
– Muito! E fui até Santiago do Chile! 
– Um dia eu chego lá… (comentei em tom de brincadeira, mas com muita esperança).

Semáforo verde:
– Um abraço e boa sorte! 
– Até mais!

Na praça da matriz, encontrei uma boa vaga para a motoca. Nesses locais o ideal é andar a pé, sem pressa, observando os nativos e confirmando que, apesar da correria de alguns, o ponteiro do relógio realmente parece andar mais devagar. Um café ou mesmo um almoço caseiro sempre caem bem e ajudam a observar a rotina local. Já ao lado da magrela e organizando uma parte da parafernália que acompanha todo bom motociclista, passa outro cidadão, olha a placa da máquina, volta pra trás e novamente sou abordado:

– Você é de Osasco? 
– Opa! Com certeza! 
– Sou lá de perto. Itupeva, conhece? 
– Itupeva… (meu processador inicia uma busca rápida em meu “HD mental” e nada da localização de Itupeva). 
– Sim, Itupeva… (onde fica Itupeva? Mas não é tão simples quanto parece, afinal, tem Itupeva, Itapeva, Itapevi… rs).

Ainda bem que ele deu uma força:

– Fica entre Campinas e Jundiaí. 
– Sim, sim, claro… Itupeva. Grande Itupeva!

De fato as cidades não estão longe uma da outra, mas, por pertencerem a regiões distintas, as relações são praticamente inexistentes, daí a dificuldade de associação inicial. Também passei a ponderar algo muito interessante – a referência de distância no interior é bem diferente da metrópole. Enquanto 50 quilômetros na cidade é um absurdo, o dobro disso “é logo ali” para o pessoal do interior, gente acostumada a viver na estrada.

Continuamos:

– E agora você tá pra cá? 
– Agora moro aqui, é bem mais tranquilo e diferente de lá. Aposentei e vim pra cá.
– Deve ser bem mais tranquilo mesmo.

Puxando o colarinho da camisa, foi logo mostrando uma cicatriz:

– Óóó! Caí de moto e quebrei aqui, aqui e aqui. E tem aqui também (disse levantando a barra da calça e mostrando o que parecia ser pinos e parafusos).

Esse tipo de conversa pode parecer sinistro, mas tá no dia a dia de muitos apaixonados pelas duas rodas. E ele continuou a história contando os detalhes do seu acidente. Parecia que éramos amigos há muito tempo, mas acabara de conhecê-lo. Por fim e já saindo, o cidadão retorna e pergunta meu nome:

– Oscar e o seu? 
– Hélio. Prazer, Oscar!

E enfatizou:
– Hélio BUENO! Se precisar de alguma coisa por aqui, procure por mim. É só perguntar por aí. Até mais!

E desapareceu em meio à multidão. (rs)
Portanto, meus amigos, se estiverem passando por Piraju e precisarem de algo ou estiverem em perigo, procurem por Hélio Bueno. (rsss) Se ele não resolver seu problema, ao menos você vai ouvir uma boa história e, provavelmente, fazer mais um amigo. Esse povo do interior é muito gente boa!

Sobre Oscar Buturi

Oscar Buturi é natural de Osasco. Arquiteto e urbanista, especializado em gestão pública municipal, atua no setor público desde 2005. Foi secretário nas áreas de meio ambiente, mobilidade urbana e comunicação social. Também atuou nas áreas de relações institucionais e obras. Escreve no Correio Paulista desde 2014.

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