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Eu assino a lista por você

-“O sistema está contaminado, já faço parte da rede de ensino há quase trinta anos! Em algum momento o barco viraria por motivos óbvios, ou por uma necessidade de sobrevivência, desistência da vida; é que alguns cidadãos não suportam tanta pressão, e buscam de forma lúcida saírem vivos do oceano, ou preferem ser engolidos por uma baleia. Eu me recuso a ensinar nesse sistema, que mais parece a cidade de ‘Nínive’”.

Esse bilhete foi encontrado no bolso do professor Jonas, naquela noite fria.

Somente na terceira aula de português com o professor Jonas, que percebi seu rosto rígido, sem sorriso, mas a sala inteira estava às cegas. Outro dia no meio do corredor, ouvi a professora de História dizer:

:- Boa noite professor Jonas, você está bem? O que está acontecendo que nunca mais foi tomar um cafezinho na sala dos professores?

Ele abaixou a cabeça e seus olhos se encheram de lágrimas. Pensei:

– Seria um aviso de que algo errado estava acontecendo em sua vida?

Hoje, na sala, a maioria dos alunos está cochilando, alguns no celular, outros rindo à toa, após terem fumado um baseado lá fora, é assim que caminha parte da humanidade escolar pelas bordas do Brasil.

Por outro lado, ontem mesmo ouvi a professora-arquiteta dizendo em bom tom para quem quisesse ouvir:

– O estado finge que me paga e eu finjo que trabalho!

Pensei comigo mesmo:

– Onde está a escolástica pregada pelos povos medievais?

Tocou o sinal, saímos juntos e na hora de passarmos pela porta, nos trombamos e ele meio sem graça, disse-me:

– Essa sala é a mais difícil de todas! Nunca vi tanta gente mal educada! Quase me joguei do barco!!

Notei que ele estava mais agitado do que o normal, ele queria sair logo da escola e me fitou com um olhar de pedido, de socorro, nos despedimos e fui para casa, a noite estava fria. Sinistra. Ao entrar na rede social (facebook), vi a postagem da diretora da escola que dizia o seguinte:

– LEIAM COM URGÊNCIA!!!

– Senhores professores e professoras de nossa unidade escolar: é com muita tristeza que lamentamos a morte do nosso querido professor Jonas!

Fechei os olhos, nenhuma lágrima desceu. Um sentimento de culpa me embargou a voz, passou um filme pela minha cabeça:

-Será que os alunos já o haviam matado, ou foi o sistema inoperante do estado? Será que ele já havia planejado tudo aquilo?

Nesse exato momento percebo que ninguém deu atenção ao seu lamento, inclusive eu, pois me comportei da mesma maneira que os alunos. No dia seguinte, tínhamos que assinar a lista de presença do dia anterior, pensei:

– Querido professor Jonas, descanse em paz, por que hoje que eu assino a lista por você.

Sobre João Antunes

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