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Momento

Jorge estava com pressa, tinha outro casamento. Sabia que seria corrido, mas precisava do dinheiro, não dava pra negar trabalho. Descarregou as fotos no laptop, trocou a bateria da câmera e partiu para a marginal e seu trânsito caótico. Tinha esquecido de colocar no Waze. “Paciência”, pensou. Show do U2. Só dava pra esperar.

No Whatsapp, mensagem do Rafão, seu melhor amigo desde a época de faculdade. Estava fazendo imagens de uma tribo indígena na Amazônia. “Ah, isso é que é trabalho!”, pensou. Prendeu o celular no suporte do carro e abriu o aplicativo. Uma mensagem e uma imagem carregando.

– Cara, se liga! – dizia Rafão na mensagem.

A imagem parecia ser de uma comunidade indígena. Tocou na tela para ampliar quase ao mesmo tempo em que um motoqueiro passou xingando o motorista do lado. A imagem demorava pra abrir. O motorista do lado xingava de volta o motoqueiro, que já estava longe, rasgando o corredor. A imagem não queria abrir. Sinal fraco. Uma ambulância forçou Jorge e os outros motoristas próximos a se espremerem da faixa da direita. A imagem não abriu. “Depois eu vejo”, pensou.

Chegou em cima da hora. Era uma igreja, sonho de infância da noiva. O noivo, ateu e indiferente. A noiva era budista-taoísta-cristã, praticante de yoga e leitora de gurus espirituais. Decoração impecável, combinando com a fabulosa arquitetura da igreja, construída nos moldes góticos medievais. Ternos caríssimos misturavam-se a vestidos multicoloridos, anunciando contas bancárias. Os pais, tanto do noivo quanto da noiva, estavam visivelmente emocionados. O amor que sentiam pelos filhos era um dos sentimentos mais verdadeiros que Jorge fotografaria naquela noite.

Trompetes anunciaram a entrada da noiva. Seu vestido parecia feito de estrelas. O pai a entregou ao noivo e, bem na hora da tradicional paradinha para foto, Jorge sentiu o celular vibrar no bolso. Depois de novo. E de novo. Após a cerimônia, antes da festa, deu uma espiada:

– E aí? Conseguiu ver? Responde aí!   – perguntava Rafão nas mensagens.

– Já vejo já. To trampando! – Respondeu Jorge rapidamente, em mensagem de voz.

Trabalho concluído, fotos armazenadas no laptop, casa, banho e cama esperando. Ao deitar e colocar o celular pra carregar, lembrou-se de Rafão. Agora no wi-fi, a imagem carregou rápido. Era mesmo uma comunidade, com um casal indígena ao fundo. Idosos. Parecia que não tinham percebido que estavam sendo fotografados. Olhavam-se de maneira simples e comovente, transmitindo todo o amor que nutriam um pelo outro. Uma imagem tocante.

– Que coisa linda, cara! – Respondeu Jorge em mensagem de voz. – Poesia, poesia!

Exausto, pegou rápido no sono. Acordou no outro dia e olhou a foto de novo. Algo indescritível naquela imagem denunciava décadas de amor e confidência, o que o havia tocado profundamente. Como seria a história daquele casal? Teriam filhos? Passaram por muitas dificuldades? O que os muitos anos de vida juntos teriam pra contar?

Jorge, apesar de seus apenas trinta e um anos, já havia se separado duas vezes. Um filho para cada ex-mulher. Desacreditou no amor. Sem contar os registros que fez de tantos casamentos, imagens belíssimas de festas maravilhosas. Para, um ou dois anos depois, terminar de maneira fria, ressecada pela rotina que erode a casca da felicidade, e pela desilusão que revela o interior oco que havia lá. Mas aquela foto, de oca, não tinha nada. Muito pelo contrário: Falava muito mais do que os pixels sonhavam em mostrar.

Naquela manhã, observando o celular com a imagem transbordando em ternura, algo de inimaginável aconteceu. Sem perceber qualquer transição, foi transportado para o momento em que a foto aconteceu. Lá estava ele, diante do casal. Demorou pra notar, quase como se estivesse num sonho, onde não se percebe que se está sonhando. Quando a ficha caiu, olhou para a direção em que supostamente estaria o fotógrafo. Não havia ninguém. Apenas o casal de velhinhos em meio à natureza, próximo a uma construção rústica bem simples, de tijolo baiano e sapê. Aproximou-se do casal, que notou sua presença.

– Olá! – Cumprimentou Jorge. – Vocês falam português?

– Sim, meu filho – Disse a mulher. – Meu nome é Guaraci, e este é meu marido Kumu.

– Prazer, meu nome é Jorge.

– Está sozinho? – Perguntou Kumu.

– Na verdade, nem sei como vim parar aqui.

– Isso acontece muito – sorriu Guaraci. – As pessoas andam pelo mundo sem saber para onde vão, e muito menos de onde vieram.

– Sim, com certeza. – Respondeu Jorge, abaixando a cabeça e sentindo que aquela colocação lhe falava mais diretamente do que parecia. – São casados?

– Há mais de sessenta anos! – Respondeu Kumu. – E você?

– Divorciado. Duas vezes. Hoje em dia os casamentos não duram como antigamente, não é mesmo? – Respondeu Jorge, com um sorriso amarelo.

– O problema das pessoas é que elas se preocupam mais com a duração do casamento do que com o que mais importa: o amor. – Afirmou Guaraci.

– E não se engane meu rapaz!  – Continuou Kumu. – No nosso tempo era assim também. A diferença é que antes as pessoas não queriam mostrar para o vizinho que o casamento deu errado. Quando não tinha amor, passavam a vida inteirinha sofrendo e carregando um peso de uma vida infeliz.

– Isso é tão difícil – Lamentou Jorge. – Como saber quando há amor?

– Ah, é fácil. – Respondeu Guaraci. – O amor, quando chega, se mostra nas coisas que você faz, não nas que você fala. Amor não é sentimento, é prática. Quando você ama, quer o bem do outro e nem se apercebe disso: Sem ver, já está fazendo alguma coisa pela felicidade dele. Não é assim com seus filhos?

– Sim, mas amor de filho é diferente…

– Amor é amor, só isso. – interrompeu Kumu. – É uma coisa só. A gente é que mistura tudo num caldeirão como se fosse uma grande sopa. Confunde uma coisa pela outra. Num casal, não tem só amor. Tem outras coisas, boas e não tão boas. Mas o amor é o que importa, é o chão pra se pisar. Sem ele, a gente afunda que nem num rio lamacento. Logo, quer fugir pra não se afogar.

– O amor a gente cultiva como se fosse planta – Disse Guaraci. – Tem que brotar de dentro. Isso só acontece se você permitir. Jogar a semente, cuidar. É um mistério da natureza. Tem momentos ruins, verdade. Mas a culpa não é do amor. É que a gente cultivou outras plantas que não devia ter cultivado: Ciúme, vaidade, paixão…

– O amor também dá frutos. – Continuou Kumu. – Muitos frutos. Alegria, esperança, ternura… Ah, e os momentos de ternura são os mais importantes! São eles que eternizam o momento, melhor que fotografia. Fotografia desbota. A memória do amor você leva contigo pra sempre. Pra onde for.

Jorge abriu os olhos. Estava de volta, deitado em sua cama. Pegou no sono. Procurou o celular e olhou a imagem do casal mais uma vez. Será que tinha apenas sonhado? Só havia um jeito de saber.

– Rafão, você sabe o nome desse casal da foto? – Perguntou, em mensagem de voz.

– José e Eunice. – Respondeu o amigo, algumas horas depois.

Sim, foi um sonho. Mas que belo sonho! Mais do que real, soava claro e verdadeiro. O amor era algo que Jorge, agora, começava a pensar em cultivar. Tomou seu café e ligou o computador para editar as fotos do dia anterior. Aquela frase de Kumu insistia em vir-lhe à mente: a ternura eterniza os momentos. Fazia muito sentido, já que ele entrou no momento daquela imagem justamente quando sentiu a ternura do casal. Desistiu das fotos e resolveu sair para dar uma volta na praça próxima a seu apartamento. O verde e as árvores o acalmavam. Sentou-se num banco e se permitiu apenas ficar em silêncio. Decidiu, para si mesmo, que aquele encontro aconteceu de verdade. E ponto final. Não interessa se foi apenas um sonho. Então seu celular vibrou novamente. Mensagem de Rafão.

– Esqueci de dizer, esses são nomes de batismo. Seus nomes de nascença são Kumu e Guaraci. Hábito da tribo, da época da colonização.

Jorge sorriu. Não que essa informação, agora, fizesse qualquer diferença. Foi apenas um sorriso de confirmação. Um sorriso que iluminava, para si mesmo, um caminho de novas e belas possibilidades.

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Sobre Edson Carvalho

Edson Carvalho é músico, poeta, ator e contista com inspiração nas belezas da natureza, nos exemplos de simplicidade, alegria e gratidão amplamente encontrados em nosso povo, mas que passam, muitas vezes, sutis, discretos e despercebidos aos nossos ocupados olhos.

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