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Negro Nal

A escola deveria ser um organismo vivo, com as possíveis manifestações artísticas e científicas. Dolores moradora do Jardim D’Abril diz:

– Mais não é.

Todo aluno deveria ser incentivado potencialmente para o bem, desde, a saída de casa, até a volta da escola. Dolores reafirma:

– Mais não é.

Dolores diz não para quase tudo. É diarista em duas casas de madames, no Parque dos Príncipes. Negra, analfabeta, trabalha feito louca, de manhã até anoitecer. Juvenal, filho único. O pai está preso por tráfico de drogas e roubo a banco.

Dona Mocinha uma moradora antiga da comunidade, contundentemente diz que:

– Essa família, sempre foi desestruturada, esse menino foi criado pelos outro! A mãe nunca deu atenção prá ele!!

No Jardim D’Abril, tudo é mantido no silêncio, ninguém viu nada, ninguém sabe de nada e o ambiente que Juvenal foi criado, era o portão de entrada do inferno. Ele usava tudo que ia encontrando pelos becos, ora acendia as bitucas de cigarros, ora cheirava os restos de cocaína, que ficava no fundo dos pinos.

Dona Mocinha conheceu bem a infância dele:

– Ele comia restos de comida de casa em casa, até revirava o lixo das esquina. Aprendeu a fazer tudo que não presta desde criança. Tinha jeito não, tinha que dar nisso ai mesmo!!

Aos treze anos Juvenal já havia sido expulso da escola, por esfaquear um aluno. Aos dezesseis foi preso com cinco quilos de maconha. O advogado conseguiu soltá-lo, pois, disse ao delegado:

– Esses cinco quilinhos é para consumo próprio!

Dolores morria de vergonha da vida que o filho levava, mas não fez absolutamente nada para ajudá-lo.

– Eu não sei o que fazê cum esse miseravê! Saiu de drentro de mim não! Puxô o pai! Só podi!

Aos dezoito anos Juvenal tinha relógio de ouro, carrão, e uma ficha criminal quilométrica. Todo mundo sabia das suas peripécias do mal. Tráfico. Homicídio. Estrupo. Roubo. Formação de quadrilha.

A fama de galanteador rendeu-lhe o apelido de Negro Nal. As mulheres mais desbocadas caiam em brigas homéricas no meio das ruas, nos bares, nos becos, nas escolas, nas festas de final de semana, tudo girava em torno do homem mais perigoso e charmoso.

Todos os dias, os aviõezinhos de Negro Nal estavam presentes no portão da escola, ali, conquistavam novos usuários e faziam fortuna de beco em beco.

Zé Gavião, estava com raiva, pois perdera sua mulher para o garanhão. A maldade, a vingança veio em plena noite de ano novo. Gavião estraçalhou Nal com um tiro de 12 na cabeça.

Dolores repleta de dores, mas conformada, disse:

– Demorô. Demorô. Demorô.

Sobre João Antunes

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