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Noite estrelada

Sentou-se próximo à fogueira. Começava a escurecer e Piatã, o Pajé, cutucava brasas com um galho fino. Ururaí e Tecoara também estavam lá, talvez esperando que ele contasse alguma de suas histórias. Piatã era um grande contador de histórias. Conhecia muitas, algumas bem antigas, de quando nossos antepassados chegaram aqui. Naquele momento, porém, apenas as histórias das cigarras podiam ser ouvidas. Rudá, paciente, esperou.

Era época de acender fogueiras todas as noites. Espantava o frio e unia a tribo. As estrelas, desabrochando no céu como flores de luz, atraiam os olhares e a imaginação dos que chegavam. A alegria de Rudá em estar em casa era imensa, pois há incontáveis luas havia se afastado numa viagem sem rumo. Perdera-se nos desvios do mundo e tivera muita dificuldade em voltar. Ururaí era seu melhor amigo, e Tecoara seu irmão mais novo. Ambos ficaram muito tristes com sua partida e rejubilaram-se com seu retorno. Aquele momento parecia eternizar-se em serenidade e paz quanto mais calados ficavam. Até mesmo as respirações eram contidas.

Todos conheciam bem o Pajé e sabiam que este era o momento apropriado para ensinar algo importante. Mas Piatã só continuava brincando com as brasas, distraído. Aparentemente. Veio então puxando uma delas, a mais incandescente, para fora da fogueira, e ali a deixou. Soltou o galho, cruzou os braços sobre os joelhos como estava, de cócoras, e esticou o pescoço para olhar as estrelas.

Rudá olhou-as também. Recordou-se do quanto elas foram suas companheiras quando esteve perdido. A única imagem familiar que sempre lhe acompanhou, onde quer que estivesse. De repente uma estrela cadente cruzou o céu. Apareceu e sumiu num piscar de olhos. Ururaí demonstrou com um sorriso que também a vira. Quanto a Tecoara, não tinha tanta certeza, pois seu irmão menor não saíra daquela posição boquiaberta, como se quisesse engolir o céu numa bocada só.

Então o Pajé voltou sua atenção novamente para aquela brasa. Estava bem mais escura e apagada. Pegou-a na mão e lançou-a de volta à fogueira. Os mais atentos perceberam que ele contava uma história sem palavras. Rudá e Ururaí eram alguns deles. Tecoara permanecia na mesma posição, tentando descer o firmamento goela abaixo.

Pouco a pouco a brasa foi se incandescendo novamente até retomar seu brilho e cor intensos. Sem falar, Piatã retirou-se para sua oca. Aqueles que entenderam a história olharam imediatamente para Rudá, que também a havia entendido. Afinal, ele a vivera na pele. Naquela noite, a ternura e a simplicidade trouxeram os mais belos ensinamentos. Para quem pudesse ver.

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Sobre Edson Carvalho

Edson Carvalho é músico, poeta, ator e contista com inspiração nas belezas da natureza, nos exemplos de simplicidade, alegria e gratidão amplamente encontrados em nosso povo, mas que passam, muitas vezes, sutis, discretos e despercebidos aos nossos ocupados olhos.

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