Home / Colunistas / O Ryan quebrou o vidro

O Ryan quebrou o vidro

Ao chegar na escola encontrei uma velha amiga, bióloga e atriz de teatro, estava ali, dando aulas de Ciências com o maior prazer do mundo, e ainda falou em voz alta que estava se realizando nessa escola. Sócrates, o professor de filosofia ouviu a conversa e disse me:
-Imagina os alunos?! Ela é uma verdadeira “Gabriela cravo e canela”, sua voz é doce como o mel puro, dentes alvos, cabelos cacheados e olhos verde-oliva, um encanto da natureza!

Ricardo, o professor de Educação Física delirava ao descrevê-la:

– A baianinha é arretada no sotaque soteropolitano.

De repente, a professora-arquiteta passou por mim e cochichou:
– Essa daí é novinha, tá começando agora, tudo é lindo!!

Sócrates, conscientemente aprovou:
– Na juventude tudo é lindo!!

Bem, conversamos um pouco e já tocou o sinal e lá fomos nós para a sala, quando abriu o portão, mais parecia um bando de loucos desesperados, todos querendo entrar ao mesmo tempo, foi quando o professor Ricardo afirmou:
– Isso não é tratamento de gente, esses alunos estavam todos presos? Ou será que tem alguém empurrando eles para dentro duma cadeia novamente? Não é possível tanta falta de educação!

Hoje, estágio de inglês será com a professora Madalena, mal entramos na sala e ouvimos os gritos dos alunos em uníssono:
– Ih fora! Ih fora! Ih fora!!

A recepção foi hilária porque a professora começou a rebolar e rebolar! Em seguida sentou-se e ali ficou até a hora de bater o sinal, leu revistas de fofocas das novelas, riu de piadas, leu suas mensagens no celular, atendeu uma ligação do namorado, e assim seguiu nossa aula de inglês.
Eu me calei, sou apenas um estagiário, não apito nada. Pensei:
– Como pode uma professora abandonar seus alunos e a si mesma? Minha consciência me cobrava uma atitude em relação ao posicionamento da professora na sala de aula, fui até ela e disse que precisaria fazer um relatório acerca da sua aula, ela foi certeira:
– Escreva qualquer coisa aí, depois eu assino seu estágio.
Nessa altura a classe estava uma balbúrdia insuportável, era aluno empurrando aluno, xingamentos de baixo calão, alguns até se beijavam.

De repente, ouvi um barulho dos vidros da janela sendo quebrados. A professora acordou e queria saber quem havia feito aquilo e por que, mas ninguém falava nada!

O silêncio reinou. E a professora nervosa e enlouquecendo:
– Quem quebrou o vidro?

Ryan, tão jovem, já com os olhos manchados de sangue me fez lembrar da tragédia “Rei Édipo” de Sófocles. Iniciou-se uma gritaria, olhei para a professora Madalena, que rezava sem conectar-se com o que estava acontecendo. E lá fui eu correndo para o hospital tentar um ligamento, pois parte da mão direta de Ryan havia sido decepada.

 

Sobre João Antunes

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.Campos obrigatórios são marcados *

*

Para topo
goldyn_trang@mailxu.com winterbottom.wes@mailxu.com