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Pastel e confiança social

O espaço é pequeno e apertado. Para quem deseja algum conforto, há algumas poucas banquetas disponíveis. Muitos comem em pé mesmo, como se estivessem na rua ou numa feira livre. Apesar disso, a esquina tradicional, invariavelmente, está sempre movimentada, especialmente aos sábados pela manhã ou próximo do almoço, como foi em minha última experiência. Enquanto saboreava um pastel e um quibe, sempre acompanhado da indispensável “Guaranita” (refrigerante de guaraná produzido com água mineral da Serra da Mantiqueira), observava os trabalhos do lado de lá do pequeno balcão, com quatro ou cinco pessoas se acotovelando para dar conta dos inúmeros pedidos.

O senhor de baixa estatura e avental branco que, há anos, prepara a massa e monta os pastéis ali mesmo, ao lado do tacho de óleo quente e aos olhos de todos os fregueses, parece incansável. A variedade de pastéis está longe de ser como nas barracas de feiras livres paulistanas, mas talvez esteja aí, também, um dos segredos da Pastelaria Fernando, localizada no Centro do município de Cruzeiro, no Vale do Paraíba, junto à principal praça da cidade e ao lado prefeitura. Com um cardápio enxuto, rapidez no atendimento, boa qualidade e preços bastante convidativos, a turma de lá do balcão tem pouco tempo pra se distrair. Chama a atenção o fato de os pedidos serem servidos sem nenhuma preocupação de registro. É comum observar famílias inteiras e outros grupos consumirem as iguarias e bebidas sem um único apontamento do que foi servido.

E no momento de acertar as contas, o atendente ouve do próprio cliente o que ele consumiu para, só, então, calcular a dívida. Isso me levou a pensar no índice de confiança social, medido todos os anos e que avalia o grau de credibilidade dos brasileiros em relação a instituições e outros grupos sociais. No quesito confiança nos próprios brasileiros, por exemplo, o índice em 2017 ficou em 55 pontos numa escala de 0 a 100. Não é de se orgulhar, convenhamos. Muito pelo contrário! Entretanto, o que se vê na pastelaria de Cruzeiro não coincide com essa realidade nacional.

A confiança ali certamente está em outro patamar, não fosse assim, o cuidado com os gastos da clientela seria bem mais criterioso. Veja que não se trata de uma cidadezinha com quatro ou cinco mil moradores, onde todos praticamente se conhecem. Sua população em torno de 80 mil habitantes faz de Cruzeiro um município médio e com alguns problemas urbanos semelhantes a outras cidades. Apesar disso, você pode comer seus pastéis tranquilamente, sem a pressão e ansiedade do balconista em não perder a conta deles.

Ao menos, nesse tradicional endereço.

Sobre Oscar Buturi

Oscar Buturi é natural de Osasco. Arquiteto e urbanista, especializado em gestão pública municipal, atua no setor público desde 2005. Foi secretário nas áreas de meio ambiente, mobilidade urbana e comunicação social. Também atuou nas áreas de relações institucionais e obras. Escreve no Correio Paulista desde 2014.

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