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Pedrinha de Sal

Pedrinha de sal. Formada na areia da praia que beira um oceano jamais atravessado. No fim da vida ele a contempla, com todo mistério de seu olhar marejado. Nos olhos e no mar, a mesma água. Na lágrima, o mesmo sal. As palavras agora não mais são para se dizer. As palavras agora são outra coisa. As coisas, agora, não são mais para se tocar. São apenas imagens flutuantes, quais bolhas de sabão que a qualquer momento podem simplesmente resolver não ser.

– De onde vem tanta força? – Ele pergunta.

O silêncio lhe responde no idioma do vazio. São mistérios que as gaivotas sempre conheceram e que os poetas já tinham tropeçado aqui e ali. No fim da vida ele contempla a simplicidade daquele sal, que cabe na palma da mão e ocupa todos os espaços. Mas os espaços não são mais espaços. Foi essa compreensão que lhe permitiu vencer sua juventude.

O tempo também não é. Nem foi, nem será, já que o tempo não depende do tempo. Diziam-lhe que é o melhor professor. Tudo cura. Tudo passa, no tempo. Eles não estavam errados. Só enxergavam de maneira limitada. Com exceção do horário do almoço, não davam nenhuma importância para a pedrinha de sal. E lá estava ela em sua eterna dança com a água do mar. Humildade é uma qualidade insuficiente para descrevê-la. Não é isso. O que é então? Qual nome por chamar?

Os religiosos afirmavam categoricamente que está em seus livros sagrados. Já guerrearam por isso, cada qual clamando para si a posse da verdade. Tudo em vão, pois todos estavam certos. De qualquer maneira, sua morada não era apenas nos inúmeros e sacros textos.

As pessoas olhavam para o céu, com tanta luz e esplendor, e imaginavam que viveria lá. Que, ao morrer, poderiam encontrar. É que seus pescoços não foram capazes de mirar para a pedrinha de sal. Mesmo assim, as pessoas também acertaram. E, mesmo assim, não estava somente lá.

Para os ateus, estava única e exclusivamente na imaginação. E nada mais. Eles não erraram nem um pouco, pois o nada e o tudo nada mais são do que o mesmo lado da mesma moeda que não tem lado, pois é tudo. E, sendo tudo, não é nada. E estava em outros lugares também.

Sem palavras. Sem coisas. Sem imagens. Sem tempo. Apenas um imensurável momento. E a pedrinha de sal naquele lugar, que já nem lugar era mais. A claridade se fazia conforme as cascas se tornavam desnecessárias. Sim, pois estava em todos os lugares. Nos livros santos, no céu, na imaginação. Na dança das ondas com a pedrinha de sal. E, principalmente, dentro de si. O oceano agora lhe convidava para conhecer ainda mais.

Sobre Edson Carvalho

Edson Carvalho é músico, poeta, ator e contista com inspiração nas belezas da natureza, nos exemplos de simplicidade, alegria e gratidão amplamente encontrados em nosso povo, mas que passam, muitas vezes, sutis, discretos e despercebidos aos nossos ocupados olhos.

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