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Um Irlandês no D’Abril

O Irlandês caiu de alegre no D’Abril e mergulhou o nariz nas carreiras de cocaína!! Já era madrugada quando um vizinho, desesperado, bateu na minha porta e disse que o meu amigo gringo, estava caído no beco da favela.

– Corre que ele desmaiou. Cheirou até as cuecas.

O tempo urge. Tenho que agir rápido. A morte pode ser certeira, pois, a periferia tem suas próprias regras. Gastei 5 minutos até lá. O que vi foi desolador. Indignado me perguntei:

– Como pode um professor de arte da alta cultura, se deixar levar pelo vício?

Ele mal sabia onde estava, com a língua enrolada, pouco se entendia. Tive que abraçá-lo. Tive que carrega-lo nos braços. Foi uma longa jornada noite adentro. Cheguei em casa, apaguei as luzes e pisei leve para não acordar meus pais. Joguei-o debaixo do chuveiro frio. Providenciei umas roupas limpas. Meu pai acordou e veio saber o que estava acontecendo:

– Que vergonha! Um homão desse envolvido com porcaria!!

Fiquei sem graça, pois a verdade pontua as coisas corretamente. Meu irmão mais velho perguntou:

– Cadê a mulher e os filhos? Eles estão sabendo dessa situação?

Era óbvio que não. Prometi que ligaria para esposa imediatamente.

– Alô!! O seu marido ainda está aqui em casa, pelo visto, bebeu muita cerveja com os amigos!

– Oi Gabriel tudo bem? Por favor, coloque-o num táxi para mim!!

– Pode deixar comigo!

O gringo desmaiou de sono no banheiro e minha irmã mais nova precisava fazer xixí. Minha casa se transformou num inferno astral, todos acordaram para ver o que estava acontecendo. Minha mãe foi enfática:

– Quem é esse cara? Por que ele está aqui? De que país ele é?

A vergonha era só minha, por trazer para dentro da casa dos meus pais, uma pessoa estranha, com tatuagens de sereias nos dois braços. Minha voz embargou:

– Ele é Irlandês e bebeu um caminhão de cerveja.

O problema ficou grave quando o gringo começou a vomitar e ficou mais vermelho que um peru em vésperas de natal.

Minha mãe preparou um chá de boldo, um café amargo e empurrou tudo goela abaixo! O resultado foi excelente! O Irlandês acordou e arregalou os olhos como se tivesse visto uma coisa ruim.

– Onde eu estou? O que está acontecendo?

Sua voz era rouca e inaudível. O tempo urgiu e já eram 6 da matina!! O professor de arte da alta classe conseguiu sobreviver a mais uma noite, regrada ao relento da loucura periférica. 7 horas britanicamente entrará em sala de aula.  Vestiu minhas roupas, soltou um arroto alto, entrou no táxi e sorriu.

Sobre João Antunes

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