NON DVCOR DVCO

Nos últimos dias essa expressão ganhou espaço em minha mente, que se permitiu divagações já costumeiras. “Non ducor, duco” (o “V” no lugar do “u” maiúsculo é uma licença poética de Guilherme de Almeida) está grifado no brasão da bandeira da cidade de São Paulo, criado em 1917, e significa “Não sou conduzido, conduzo”. Ou “Não sou liderado, lidero”. A expressão procura destacar o protagonismo e hegemonia paulistas no desenvolvimento do país, qual locomotiva que puxa os vagões de uma composição. A figura da locomotiva, evidentemente, não tem a mesma força de 100 anos atrás, quando a ferrovia era símbolo de progresso e a capital prosperava nos trilhos do café e da ainda incipiente industrialização. Minha divagação, entretanto, diz respeito à condição coletiva e a forma como, ao contrário do grifo na bandeira paulistana, somos guiados e não temos as rédeas dos eventos ao nosso redor. Embora alguns possam acreditar que têm o timão de suas vidas, a verdade é que a maioria é levada pelo vento. Para onde ele está soprando? É para lá que vamos. Como gado, somos conduzidos. Observe, por exemplo, o trabalho da imprensa, por quem somos pautados a todo instante. Como não se fala mais a respeito da febre amarela, temos a impressão de que as coisas se ajustaram e o problema diminuiu. Ledo engano. A sensação coletiva acompanha o noticiário ou você ainda não se deu conta disso? Você se desespera diante de notícias negativas pelo simples fato de que estão sendo veiculadas, no entanto, se as mesmas informações não forem mais transmitidas, suas preocupações desaparecem. Ou pelo menos diminuem sensivelmente. Nossos sentimentos acompanham o vento. Não sou contra a imprensa, pelo contrário, sou um entusiasta e reconheço a importância da sua função social. Minha intenção é provocar e estimular um olhar mais criterioso, questionador e menos passivo. Você pode e deve escolher o que ver, onde ver e como ver. Não fique escravo de uma só fonte, busque alternativas e outros olhares. Decida o que você não quer ver. Se vamos continuar sendo conduzidos, que ao menos ofereçamos alguma resistência.

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