Correio Paulista

O orgulho das loucas

A dica de hoje é como conseguir um TÍTULO DE LOUCA.
(alerta: o texto a seguir possui excessivo uso de ironia e deboche).

Se você ainda não foi rotulada, vou ensinar como adquirir tal certificação, que se der sorte, consegue em conjunto um processo judicial de proibição verbal desse intensivão.

Vamos lá, pré-aqueça o seu semblante com bastante inocência.
Normalmente o ponto para se tornar futura louca são jovens/adolescentes. Então, acione uma relação com alguém mais velho ou pessoa com um pouco de poder (dinheiro ou importância social). Feito isso, já tem meio caminho andado.

O próximo passo é tentar ser você: usar roupas a gosto e ser vaidosa. A obediência é muito recomendada, aliás, ela é essencial para o resultado. Feito isso, é só deixar rolar.
O parceiro vai te trair, e você acha ruim, então ele vira o jogo e te faz acreditar que quem o traiu foi você. Num instante, você “se lembra” de ter saído com um cara, ou melhor, cinco. Ter flertado e ido pra cama com ele (s). Você sente todo o processo de culpa e se desculpa pela sua traição.

Passado pouco tempo, ele vai proibir amizades, passeios e até mesmo contato com sua família, que injustamente não gosta dele, porque são abusivos e querem mandar na sua vida. Cuidado querida futura louca, se você não se tornar inimiga dessas pessoas, você vai chegar rapidamente no próximo passo.

Ele vai bater em você e dizer o quanto é chata, ciumenta e inútil, entretanto, ele vai querer que você o satisfaça, e não é uma opção, é um fato a ser realizado por livre e espontânea obrigação e violência.
Pronto, para finalizar, é só aturar isso e mais um pouco, por tempo o suficiente para você se ver com duas opções: se matar ou fugir.
As que se matam, ganham um rotulo de depressiva, pobrezinha.
As que fogem, eis-nos aqui: L.O.U.C.A.S

Ironias e deboches a parte.
Nossa loucura é somente a nossa voz, coragem e alforria. Nossa revelação de todos os abusos e toxidades a que fomos submetidas. QUE TEMOS DIREITO DE CONTAR, pois somos a parte principal e peça mais importante para os fatos terem acontecidos. Entretanto, somos desclassificadas como PEÇA PRINCIPAL, VULGO VÍTIMA, e somos caladas PELA JUSTIÇA. O agressor, covarde, canalha, tem TANTO direito de zelar pela imagem, quanto você, vítima, agredida, humilhada e exposta de forma constrangedora a sociedade por pura proteção.

Passado o fim do abuso sofrido pelo cara que você amou, a sociedade te apresenta uma nova fase de trauma. Desacredita da sua palavra e a culpa por ter permitido tais violências. Como se existisse alguma compensação no mundo que valesse tamanhos traumas e dores.
Uma vítima abusada jamais será inteira. Terá para sempre fantasmas que assombrarão sua confiança, segurança e psicológico. Serão sempre desconfiadas das boas intenções, dos amores sinceros e dos homens gentis.
Porque atrás de um abusador, tem um sorriso amigo, um abraço confortável e um olhar amoroso. E infelizmente, atrás de uma mulher com um ex abusivo, terá sempre A CULPA.
E esse é o ponto que precisamos CURAR. A culpa é uma espécie de doença pós trauma, ela precisa ser solucionada. Não é fácil, porque ela nos massacra, arde, e ataca sempre que nos sentimos vulneráveis.
Precisamos perdoar tudo aquilo que vivemos. Fortalecer nossa confiança, percepção, e nos reconectar com nossa INTUIÇÃO.

Enquanto cidadã, eu questiono:
Onde já se viu, mulheres serem violadas, violentadas, estupradas, humilhadas, traídas, agredidas, torturadas e dentre TAMANHOS ABSURDOS e confusão emocional, conflituando com o sentimento que nutrem pelo agressor, ainda TEREM que PROVAR para sociedade a VERACIDADE dos fatos que estão impressos em seu olhar, corpo e alma.
São diagnosticadas como loucas por retratar coisas VIVIDAS e SOFRIDAS por elas.
Antes de julgar alguém, leia o significado de EMPATIA. Acredito que dentre tantas coisas inúteis que a gente faz no nosso dia a dia, esta pode ser uma ação bastante útil, até que seja uma característica natural: empático.

E você, mulher, que sofreu ou sofre abusos, sua força é imensurável. Ela é toda a sua consciência. Obrigada pela coragem de não se calar. E que sejamos união ás que ainda não conseguem gritar!

Disque 180 – Central de Atendimento à Mulher
A denúncia é anônima e gratuita, disponível 24 horas, em todo o país.

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