Uma mãe sabe ouvir o coração de outra

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Amar o próximo nos traz experiências imensuráveis. Até mesmo gerar um bebê para outra mulher.
Altruísmo? Empatia? Como definimos tamanho gesto?

Fernanda Dourado, 27 anos, sempre desejou ser mãe. Quando pequena, não pensava em ser médica ou advogada, ela queria construir uma família. Sua alegria era cuidar dos filhos dos vizinhos e brincar com suas bonecas, como se fossem suas filhas. Seus pais não eram casados, e ela acabou sendo criada pelos avós, dos quais recebeu muito amor e educação.

Seu sonho de ser mãe não demorou muito para se realizar, aos 14 anos ela teve seu primeiro filho. Não foi planejado, assim como seu segundo bebê aos 20 anos de idade. Na época, a pedido do parceiro, ela fez uma laqueadura no parto. Contudo, no fundo, ela ainda tinha vontade de ser mãe novamente.

A maternidade, na maioria das vezes é muito romantizada. Num geral, as mulheres sempre serão alvos de críticas, independente do estilo de vida. Há as que não desejam ter filhos, há quem deseja ter todos que vier. Mas infelizmente, para ela, esse sonho de novos filhos teria que ficar para trás.

Certo dia, numa conversa com uma tia que estava tentando engravidar e não obtendo sucesso nas tentativas – nem natural, nem por fertilizações in vitro -, Fernanda se ofereceu para ser sua barriga solidária. Semanas mais tarde, a tia questionou se a sobrinha teria coragem e a moça confirmou que sim.
O casal de tios já tinha outros filhos de outros relacionamentos, e após a triste perda de um deles num acidente fatal, desejavam um bebê dos dois. Infelizmente, por conta de idade avançada, as tentativas de fertilizações não vingaram.

No Brasil, útero de substituição (barriga solidária) é regulamentado pelos Conselhos Regionais de Medicina, porém não tem nenhuma lei específica sobre o assunto. As normas são simples: a mulher voluntária precisa ter até quarto grau de parentesco com o casal requerente. Além disso, não pode haver relação comercial, ou seja, nenhuma precificação ou acordo financeiro pelo procedimento.


Apesar da laqueadura de Fernanda – que a impedia de engravidar de forma natural, com seus ovários e trompas – ela era totalmente apta a gerar o bebê através de FIV (Fertilização In Vitro), pois o procedimento implanta o embrião direto no útero.
E assim ocorreu, não só um, mas dois bebês!

Imaginem só, ter dois bebês crescendo dentro de você, os quais serão entregues para os pais biológicos assim que nascerem. Como funciona a preparação psicológica numa situação dessas?
“Foi surreal gerar dois bebês, e claro, sempre estive ciente de que não eram meus. O maior desafio é esse! Eu só gerei os bebês, os óvulos foram da minha tia, a mãe é ela! Tive acompanhamento psicológico durante toda a gestação, e isso me ajudou a compreender ainda mais sobre o amor ao próximo. Eu tinha um propósito de vida e ter podido realizar isso, mesmo laqueada, foi incrível.”, declara Fernanda.

Gêmeos, filhos concebidos em barriga solidária de Fernanda para seus tios

Fernanda é doadora de óvulos em Portugal, país que reside. Lá, barriga solidária não é um processo simples. Portanto, ela fez todo o procedimento no Brasil e se dividiu entre os dois países até o fim da gestação. Seu esposo não ficou a favor da decisão, e por um determinado tempo ficaram separados.
A gestação ocorreu tranquila, apenas com enjoos e azia. Estela e Salvador nasceram de 37 semanas, através de uma cesárea, super saudáveis, pesando 2,5kg cada um.

“Tive todo o contato de uma mãe, só não amamentei. O hospital estava ciente do caso, então trouxeram leite materno do banco de leite para o centro cirúrgico. Passei todo o tempo de resguardo com eles e com minha tia, mãe dos bebês, que também cuidou muito bem de mim.” Relembra ela.

Hoje, os gêmeos têm entre 8 e 9 meses, vivem com os pais biológicos aqui no Brasil, e Fernanda mora em Portugal com o marido e os filhos. Estão sempre em contato via internet, e todos estão felizes.

É importante ressaltar que, apesar de não poder ter NENHUM acordo financeiro e comercial no processo de útero voluntário, os pais biológicos devem arcar com as despesas médicas da grávida, durante todo o pré-natal, parto e resguardo.

Essa história nos faz refletir sobre solidariedade, escolhas e renúncias e principalmente sobre SORORIDADE. Um coração de mãe sempre pode ouvir o coração de outra mãe. Muitas vezes, vivemos a vida à toa, sem sentido. Mas há tanto poder em nossas mãos, desde doar sangue, a doar alguns óvulos/espermatozoide para pessoas que desejam realizar o sonho de serem pais.

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