Entre Leis, Ódios e Desinformação, o Ataque a Cultura

Alexandre Frassini Colunistas
Por – Alexandre Frassini

Vamos falar de Cultura, sim. Mesmo sabendo que, hoje em dia, parece assunto jogado fora — como se fosse descartável, irrelevante ou sempre “tendencioso”. Mas vamos lá.

Inspirado em Aristóteles, divido este texto em três atos.

Ato I – O Agente Secreto

Aconteceu novamente. Assim como no ano passado, com Ainda Estou Aqui, voltamos a ver brasileiros torcendo contra a indicação de um filme nacional ao Oscar. Pior: muita gente pronta para comemorar nas redes sociais caso o filme não leve prêmio algum.

O principal argumento — quase sempre sem que a pessoa tenha visto o filme, estudado o tema ou sequer buscado informação — é o uso da Lei Rouanet, uma lei federal de incentivo à cultura. A palavra virou sinônimo de privilégio, corrupção ou mamata, mesmo para quem não faz ideia de como ela funciona.

Ato II – Caetano e Bethânia

Ontem, assim que saiu a premiação do Grammy do disco dos irmãos, um grande portal de notícias publicou uma matéria sobre a conquista. O que se viu nos comentários foi deprimente. Pessoas que nunca ouviram a obra, xingando os artistas, usando palavrões, fazendo ameaças, desejando o mal à saúde de Caetano e Bethânia — um festival de ódio gratuito.

Mais uma vez, o argumento central para destilar esse rancor: Lei Rouanet. Uma lei citada como se fosse um crime, por pessoas que claramente não fazem a menor ideia do que estão falando.

Ato III – Quando a Cultura é Local

Existe também outra lei federal: a Lei Aldir Blanc, que oferece aos municípios a oportunidade de promover crescimento e desenvolvimento cultural para artistas locais.

Os municípios precisam cumprir regras básicas de execução dos recursos recebidos no primeiro ciclo. Por não ter executado ao menos 60% do valor — uma exigência fundamental — Osasco ficou de fora.

A Secretaria de Cultura publicou uma nota dizendo que “não é bem assim” e que tudo será resolvido. Ao mesmo tempo, viralizou nas redes um vídeo de uma reunião do Conselho de Cultura de Osasco, em que minha querida amiga Marizeth faz um desabafo contundente, cobrando o secretário pelo descaso com a cultura da cidade. Ela afirma, inclusive, que em um ano à frente da pasta, aquela teria sido a primeira reunião do conselho da qual ele participou.

E, mais uma vez, os comentários nas redes foram deprimentes:

“Artista tinha que arrumar emprego.”
“Artista tem que se lascar mesmo.”
“A prefeitura tem coisa mais importante pra cuidar.”

Percebe um detalhe curioso?
Aqui, ninguém falou da Lei Rouanet.
Nem da Lei Aldir Blanc.

Epílogo – Cultura dá voto?

O que estamos vendo é um afastamento perigoso dos nossos valores. Pessoas julgam sem conhecer, repetem fake news recebidas no WhatsApp, despejam ódio político em qualquer assunto e tratam a cultura como algo sem importância, superficial, dispensável.

O pior é que políticos, influenciados por esse discurso raso e agressivo, parecem abduzidos por essa ideia e travam qualquer debate cultural com a velha desculpa:

“Cultura não dá voto.”

Será?

Porque os blocos de carnaval que vão pipocar em Osasco, com multidões nas ruas e políticos financiadores e sorridentes no meio do povo, também são expressão cultural.
Mas esse tipo de cultura… essa dá voto, né?

Talvez este seja um bom momento para repensar tudo isso. Separar cultura de disputa política rasa. Buscar informação. Entender como funciona — ou como deveria funcionar — a política cultural do país e da nossa cidade.

E, quem sabe, ao menos pesquisar quem foi Rouanet e quem foi Aldir Blanc. Porque, esses dias, perguntei isso a um desses “vomitadores de críticas culturais” — e ele não fazia ideia.

É o Fim.

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