
O trânsito parece ter deixado de ser um problema faz tempo.
Virou parte da rotina de quem vive nas grandes cidades.
Em São Paulo, por exemplo, ninguém pergunta mais se vai pegar trânsito.
A pergunta costuma ser: quanto.
Outro dia, conversando com uma moça mais jovem dentro do carro, ela olhou para a avenida completamente parada e fez uma pergunta simples:
“Mas por que o trânsito se forma?”
A dúvida dela parecia misturar ingenuidade com desespero.
Ela sorria enquanto olhava o relógio pela terceira vez, claramente preocupada em chegar atrasada.
Na cabeça dela, as ruas tinham continuidade.
Os carros estavam todos na mesma direção.
Então, teoricamente, eles deveriam andar.
Ela não conseguia entender em que momento a cidade simplesmente trava.
Tentei explicar falando dos acidentes, dos semáforos, dos gargalos urbanos e principalmente da quantidade de carros.
Falei que talvez fosse parecido com a saída de um estádio ou de um grande show.
Todo mundo consegue andar…
até ter gente demais tentando passar ao mesmo tempo.
Dias depois, conversando sobre trânsito com um senhor mais velho, ouvi uma análise completamente diferente.
Ele era daqueles homens de poucas palavras.
Expressão séria, quase carrancuda.
Mas daquele tipo que, quando resolve falar, todo mundo escuta.
Existe gente que parece carregar experiência até no silêncio.
Falando sobre congestionamento, ele me disse algo que eu ainda não tinha pensado:
“Grande parte do trânsito é causada pelos próprios motoristas.”
Segundo ele, muita gente dirige sem entender a dinâmica da cidade.
Conversões erradas, freadas desnecessárias, indecisões, pressa demais ou medo demais.
Pequenos erros individuais que, somados, acabam travando avenidas inteiras.
Achei curioso porque a análise dele era quase o oposto da pergunta da moça mais jovem.
Ela enxergava o trânsito como um mistério da cidade.
Ele enxergava como consequência do comportamento humano.
E talvez os dois tenham razão.
Porque no fim, o trânsito parece ser exatamente isso:
uma cidade inteira tentando seguir em frente ao mesmo tempo.

