
Existe uma sensação curiosa em Balneário Camboriú que talvez nenhuma fotografia consiga registrar.
A cidade tem duas temperaturas.
E não estou falando da previsão do tempo.
Na faixa de areia, o sol domina tudo.
O calor bate forte.
A luz atravessa os corpos, o mar, os prédios espelhados.
Existe vida acontecendo sob o céu aberto.
Mas basta caminhar alguns metros para dentro da cidade e algo muda.
O vento esfria.
A luz desaparece.
As ruas ficam cobertas por sombras permanentes projetadas pelos arranha-céus.
É quase como atravessar cidades diferentes sem mudar de endereço.
E talvez essa seja uma das contradições mais silenciosas de Balneário Camboriú:
ao mesmo tempo em que a cidade ampliou sua faixa de areia para devolver espaço ao sol, os próprios edifícios criaram regiões onde a luz mal consegue tocar o chão.
Eu caminhei nas duas cidades.
Na cidade quente da praia.
E na cidade fria entre os prédios.
A poucos metros de distância uma da outra.
E a diferença não é apenas visual.
Ela é física.
É térmica.
O corpo sente.
Os arranha-céus impressionam.
A engenharia impressiona.
A grandiosidade impressiona.
Existe algo fascinante na maneira como Balneário Camboriú parece disputar espaço com o próprio céu.
Mas caminhar entre aqueles corredores de concreto também provoca outra sensação:
a de que a arquitetura não altera apenas a paisagem — ela altera a temperatura da vida.
Em alguns pontos da cidade, o sol chega fragmentado.
Recortado entre edifícios.
Refletido em vidros.
Interrompido por sombras que parecem permanentes.
Como se a luz precisasse negociar espaço para existir.
E talvez seja justamente isso que mais me chamou atenção:
a percepção de que uma cidade pode produzir climas emocionais diferentes dentro do mesmo quarteirão.
Na praia, existe expansão.
Calor.
Movimento.
Entre os prédios, existe silêncio.
Frieza.
Uma sensação quase artificial de isolamento.
Não se trata de condenar a arquitetura.
Balneário Camboriú é, sem dúvida, uma obra impressionante da engenharia urbana brasileira.
Mas toda construção também produz consequências invisíveis.
Algumas mudam a paisagem.
Outras mudam a maneira como o corpo experimenta a cidade.
No fim, caminhar por Balneário Camboriú me deixou uma pergunta simples:
até que ponto uma cidade pode crescer em direção ao céu sem começar, aos poucos, a afastar o próprio sol das ruas?
Porque existem sombras que não são apenas ausência de luz.
Algumas têm concreto, vidro e assinatura arquitetônica.

