
Só é gorda quem quer! Ou melhor: só não é magra quem não quer ser.
Essa é, muitas vezes, a mensagem que fica quando o assunto emagrecimento aparece, seja nas redes sociais, no elevador, conversas de academia ou entre amigos. Afinal, agora existem as tais “canetas emagrecedoras”. Mas vamos com calma, porque a histórias não é tão simples assim.
O que chamamos de “canetas” são na verdade, medicamentos da classe dos análogos do GLP-1. Eles imitam a ação de um hormônio produzido naturalmente pelo organismo e foram desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2 e obesidade. O problema é que, atualmente, muitas pessoas que sentem-se desconfortáveis com o próprio corpo, ou desejam perder de dois a três quilos têm recorrido a esses medicamentos. E vale reforçar: estamos falando de remédios, que estão sendo usados para fins estéticos. O uso deveria ser apenas indicado após uma avaliação médica, considerando os riscos e benefícios, além da real necessidade do tratamento.
O que mais me preocupa é que, está havendo uma medicalização da magreza. O medo de não corresponder aos padrões estéticos é tão grande que muitas pessoas compram esses medicamentos sem acompanhamento profissional ou utilizam prescrições feitas de forma banalizada. Como qualquer medicamento, os análogos do GLP-1, também apresentam efeitos colaterais. Entre eles estão náuseas, redução importante do apetite, vómitos, diarreia, constipação intestinal e dor de cabeça. Outro efeito menos falado, é a xerostomia, conhecida como boca seca. A redução da saliva favorece a proliferação de bactérias, aumenta o risco de cáries e compromete o equilíbrio da saúde bucal.
Mas talvez a reflexão mais importante seja outra. Se hoje existe um medicamento capaz de promover emagrecimento, isso significa que toda pessoa acima do peso deveria utilizá-lo? Em que momento passamos a enxergar o corpo como uma massa de modelar, que precisa ser ajustada o tempo todo? Estamos transformando o desconforto corporal, que é muitas vezes construído por padrões irreais de beleza (Alô inteligência artificial), em um problema que precisa ser tratado com remédio.
Antes de buscar medicamento, vale a fazer algumas perguntas: o que realmente me incomoda no meu corpo? Quem me ensinou a enxergá-lo dessa forma? Estou tentando cuidar da minha saúde ou apenas me aproximar de um padrão que me disseram ser o ideal? Porque, muitas vezes, o que precisa de cuidado não é o corpo, mas a relação que construímos com ele.

