
Há cidades que nos recebem com um cartão-postal.
Potosí me recebeu tirando o ar.
Antes mesmo de conhecer sua história, precisei respeitar a altitude. A mais de quatro mil metros acima do nível do mar, poucas quadras bastavam para lembrar que ali o ar tinha outro ritmo. Tomei um remédio contra o soroche e só então consegui caminhar sem que cada passo parecesse maior do que realmente era.
E Potosí merece cada passo.
Do alto do Convento de San Francisco e da Torre da Companhia, a cidade parecia guardar as marcas de um passado grandioso. Igrejas, construções coloniais e o Cerro Rico ao fundo lembravam uma época em que a prata daquela terra atravessava oceanos.
Na Casa da Moeda, compreendi a dimensão daquela história.
A cidade, hoje tranquila aos olhos de quem chega, já esteve no centro da economia mundial. Foi dali que saíram toneladas de prata extraídas do Cerro Rico, enriquecendo a Coroa Espanhola e financiando impérios. Durante algum tempo, Potosí esteve entre as cidades mais ricas e populosas do planeta.
Saí da Casa da Moeda pensando em impérios.
O terminal rodoviário me fez pensar em pessoas.
O prédio lembrava mais um ginásio de esportes do que uma rodoviária. A cobertura ampla e o formato da construção chamavam atenção. Mas bastou atravessar a entrada para que outra imagem tomasse conta.
O som era de feira livre.
Os vendedores anunciavam os destinos aos gritos, tentando fazer suas vozes chegarem antes das dos outros.
A pressa, porém, era de terminal.
Por um instante, pensei estar no Terminal Grajaú, em São Paulo. O mesmo vai e vem apressado, ambulantes oferecendo mercadorias, ônibus chegando e partindo sem trégua.
Foi naquele movimento que parei para comprar uma bala — ou um drops, como eu chamava na infância.
A mulher sorriu antes mesmo de me entregar o troco.
— Você é do Brasil?
Respondi que sim.
Ela contou que já havia morado em São Paulo. Vendia doces nas proximidades do Terminal da Lapa.
Perguntei por que voltou.
Não conseguiu aprender português.
A resposta foi curta.
O silêncio que veio depois, não.
Naquele instante, a Lapa deixou de ser apenas um lugar citado por ela. Tornou-se a lembrança de uma tentativa, de um caminho que precisou ser interrompido.
Estamos acostumados a encontrar bolivianos vivendo e trabalhando no Brasil. Quase nunca pensamos naqueles que tentaram construir uma vida por aqui e precisaram voltar.
Ela voltou.
E continuou.
Todos os dias montava sua banca, organizava os doces, recebia passageiros, entregava trocos e esperava o próximo ônibus.
Sem discursos.
Sem grandes explicações.
Apenas seguindo em frente.
Na Casa da Moeda aprendi como a prata de Potosí atravessou oceanos.
No terminal rodoviário conheci alguém que também atravessou fronteiras. Não encontrou no Brasil o futuro que imaginava, mas encontrou coragem para recomeçar onde sua história continuava.
Quando me despedi, coloquei a bala no bolso e guardei o troco.
Foi só mais tarde que percebi que levava dali muito mais do que imaginava.
Séculos atrás, de Potosí saía a prata que ajudava a mover a economia do mundo.
Naquela manhã, comprei uma bala e recebi um troco.
Voltei levando uma história que valia mais do que toda a prata que um dia saiu daquela montanha.

