
“Pry, será que você consegue me ajudar? Acho que estou tendo compulsão alimentar.”
Tanto no consultório quanto no hospital, eu escuto essa frase com frequência. E, na sequência, costumo devolver a pergunta: “Mas me conta, como é essa compulsão para você?” . Muitas vezes, o que as pessoas descrevem é um relato de um episódio de exagero alimentar, e não necessariamente uma compulsão. Por isso, hoje quero conversar com você sobre a diferença entre essas duas situações.
Imagine que você chegou em casa depois de um dia cansativo, abriu a geladeira e começou a pegar diferentes alimentos: arroz, suco, queijo, sobremesa do dia anterior, carne, o leite que tomou pela manhã… Em pouco tempo, comeu uma quantidade muito maior do que costuma comer, de forma desorganizada e com a sensação de que perdeu o controle diante da comida.
Talvez tenha comida mais rápido do que o habitual, continuado mesmo depois de estar fisicamente satisfeito ou até desconfortável e, naquele momento, nem estivesse sentindo fome. Depois, pode ter surgido vergonha da quantidade que comeu, culpa ou até uma sensação de desgosto consigo mesmo.
Esse conjunto de características pode estar presente em um episódio de compulsão alimentar. Quando episódios como esse acontecem de maneira recorrente, acompanhados de uma sensação de perda de controle e outros critérios específicos, podemos estar diante de um Transtorno de Compulsão Alimentar. E aqui existe uma diferença importante: um episódio isolado não significa que a pessoa tenha um transtorno.
Agora pense em outra situação. Você foi ao cinema, pediu uma pipoca e um refrigerante. Após o filme, foi em um restaurante fast food e pediu um combo completo, com batata frita e bebida. Para finalizar, ainda escolheu um sorvete de sobremesa, com bastante calda de chocolate.
Nesse caso, pode ter acontecido um exagero alimentar. O mesmo é comum em restaurantes com o serviço de rodízio ou por quilo, quando acabamos comendo mais do que havíamos planejado ou seria confortável. A diferença é que não necessariamente houve uma sensação de perda de controle. Você pode simplesmente ter comido além do que pretendia.
E isso também pode vir acompanhado de arrependimento ou culpa. Ainda, vivemos em uma sociedade que frequentemente fala que comer determinados alimentos ou comer “demais” é algo errado. Mas aqui está um ponto importante: situações como essas fazem parte da vida. Eventualmente, vamos comer mais do que gostaríamos, escolhendo alguns alimentos apenas porque estamos com vontade. E o nosso corpo sabe lidar com esses episódios pontuais.
Por isso, exagerar em uma refeição não significa que você precisa começar uma dieta no dia seguinte. Na verdade, talvez seja justamente nesse momento que precisamos construir mais autonomia alimentar, para sentir-se segura para fazer escolhas, inclusive quando estiver fora da rotina, sem transformar uma refeição em motivo de culpa ou punição.
Comer bem também é aprender a lidar com a comida a partir dos imprevistos da vida.

