Sarampo: uma doença antiga que continua desafiando a saúde pública

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Por Dra. Simone Neri

O sarampo já foi considerado uma das doenças infecciosas mais devastadoras da história da humanidade. Antes da existência da vacina, era responsável por milhões de mortes todos os anos, principalmente entre crianças. Embora hoje exista uma vacina altamente eficaz e segura, os casos registrados recentemente no Brasil e em outros países mostram que a doença está longe de ser apenas uma lembrança do passado.
O Ministério da Saúde voltou a emitir alertas em 2026 após a confirmação de novos casos da doença, especialmente relacionados à importação do vírus por viajantes e à ocorrência de surtos localizados. O principal fator de preocupação continua sendo a redução da cobertura vacinal em diversas regiões do país, criando um contingente de pessoas suscetíveis à infecção.

Uma doença conhecida há séculos
O vírus do sarampo acompanha a humanidade há milhares de anos. Pesquisas sugerem que ele tenha evoluído a partir de um vírus semelhante ao da peste bovina (rinderpest), adaptando-se aos seres humanos. Ao longo da história, epidemias dizimaram comunidades inteiras, especialmente antes dos avanços da medicina moderna.
Até a década de 1960, praticamente todas as crianças contraíam sarampo. Muitas se recuperavam, mas milhões desenvolviam complicações graves, como pneumonia, encefalite (inflamação cerebral), cegueira permanente e desnutrição severa. Em diversos países, a doença era uma das principais causas de mortalidade infantil.

A descoberta que mudou a história
A grande revolução ocorreu graças ao pesquisador norte-americano John Enders, conhecido como o “pai da vacina do sarampo”. Na década de 1950, ele conseguiu isolar e cultivar o vírus em laboratório, um feito que permitiu aos cientistas desenvolver uma vacina eficaz.
Em 1963 foi licenciada, nos Estados Unidos, a primeira vacina contra o sarampo, produzida a partir da cepa Edmonston B. Embora oferecesse proteção, provocava febre e manchas na pele em muitos vacinados e precisava ser administrada juntamente com imunoglobulina para reduzir seus efeitos.
Dois anos depois, em 1965, surgiu uma versão muito mais segura, utilizando a cepa Schwarz, obtida por sucessivas atenuações do vírus. Essa formulação tornou-se a base da vacinação em grande parte do mundo.
Em 1968, o renomado microbiologista Maurice Hilleman desenvolveu a cepa Moraten (More Attenuated Enders), considerada ainda mais segura e eficaz. Essa versão continua sendo utilizada em diversos países até hoje.

A chegada da tríplice viral
No início da década de 1970, outro avanço importante simplificou a imunização: a combinação da vacina contra o sarampo com as vacinas contra caxumba e rubéola, dando origem à vacina tríplice viral (MMR). Essa estratégia facilitou as campanhas de vacinação e ampliou significativamente a proteção da população.
Em 2005, foi incorporada também a vacina tetraviral (MMRV), que acrescenta proteção contra a varicela (catapora), reduzindo ainda mais o número de aplicações necessárias na infância.

A ciência também aprende com seus erros
O desenvolvimento das vacinas não ocorreu sem desafios. Algumas formulações iniciais foram abandonadas justamente porque a vigilância científica identificou problemas importantes.
Uma vacina produzida com vírus inativado por formalina provocava uma forma rara e grave da doença conhecida como “sarampo atípico” quando os vacinados entravam em contato posteriormente com o vírus selvagem. Outra vacina, de alto título viral, utilizada experimentalmente no final da década de 1980 em alguns países em desenvolvimento, foi retirada após estudos demonstrarem aumento inesperado da mortalidade tardia entre meninas vacinadas.
Esses episódios ilustram como a ciência evolui continuamente. As vacinas atualmente utilizadas passaram por décadas de aperfeiçoamento, estudos clínicos rigorosos e monitoramento permanente de segurança, tornando-se uma das intervenções médicas mais eficazes já desenvolvidas.

O retorno do sarampo preocupa
Graças às campanhas de vacinação, o Brasil conseguiu eliminar a circulação endêmica do vírus e voltou a receber, em 2024, o certificado internacional de eliminação do sarampo. Entretanto, essa conquista depende da manutenção de elevadas coberturas vacinais.
Os casos registrados neste ano demonstram que o vírus continua circulando em vários países e pode ser importado por viajantes. Quando encontra pessoas não vacinadas, rapidamente provoca surtos, já que é considerado um dos vírus mais contagiosos conhecidos. Uma única pessoa infectada pode transmitir a doença para até 90% das pessoas suscetíveis que estejam próximas.
Os sintomas costumam começar com febre alta, tosse, coriza, olhos avermelhados e mal-estar intenso. Alguns dias depois aparecem as manchas vermelhas características que começam no rosto e se espalham pelo corpo. Em crianças pequenas, idosos e pessoas imunossuprimidas, as complicações podem ser graves e exigir internação.

A melhor proteção continua sendo a vacina
A vacina contra o sarampo continua disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e apresenta eficácia superior a 95% após o esquema completo de duas doses.
Mais do que uma proteção individual, a vacinação protege toda a comunidade. Quando a maioria das pessoas está imunizada, o vírus encontra dificuldade para circular, protegendo também bebês ainda muito pequenos para receber a vacina, pacientes em tratamento contra o câncer, transplantados e pessoas com imunidade comprometida.
A história do sarampo demonstra que a ciência foi capaz de transformar uma doença responsável por milhões de mortes em uma enfermidade plenamente prevenível. O desafio atual já não é desenvolver uma vacina melhor, mas garantir que ela chegue a todos. Em tempos de desinformação, manter a caderneta de vacinação em dia continua sendo uma das decisões mais importantes para proteger a própria saúde e a de toda a sociedade.
Saúde para Todos é um espaço dedicado à promoção da informação baseada em evidências, porque conhecimento também salva vidas.

Dra. Simone Neri

  • Médica
  • Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia
  • Presidente do Instituto Casa Neri
  • Médica matriciadora em Dermatologia na rede pública de saúde

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