
Envelhecer é uma conquista. Vivemos mais, fazemos planos para o futuro e buscamos preservar a autonomia pelo maior tempo possível. No entanto, quando pensamos em longevidade, não basta acrescentar anos à vida: é preciso cuidar da qualidade desses anos — e isso inclui proteger a saúde do cérebro.
Setembro é o Mês Mundial de Conscientização sobre a Doença de Alzheimer, a forma mais comum de demência. A doença compromete progressivamente a memória, o raciocínio, a linguagem, o comportamento e a capacidade de realizar tarefas cotidianas. Embora seja mais frequente após os 65 anos, a demência não deve ser considerada uma consequência natural e inevitável do envelhecimento.
Esquecer ocasionalmente onde colocou um objeto ou demorar para lembrar um nome pode acontecer com qualquer pessoa. O sinal de alerta surge quando os esquecimentos se tornam frequentes, interferem na rotina ou vêm acompanhados de outras mudanças: repetir várias vezes a mesma pergunta, perder-se em locais conhecidos, apresentar dificuldade para administrar dinheiro ou medicamentos, não conseguir acompanhar uma conversa ou demonstrar alterações importantes de comportamento.
Diante desses sinais, a família não deve atribuir tudo simplesmente à idade. Uma avaliação médica é fundamental, pois alterações de memória também podem estar relacionadas à depressão, a distúrbios da tireoide, à deficiência de vitamina B12, a efeitos de medicamentos, a problemas do sono e a outras condições que precisam ser investigadas.
Ainda não existe uma forma capaz de impedir completamente o aparecimento da doença de Alzheimer. Entretanto, a ciência mostra que há muito a ser feito ao longo da vida para reduzir o risco de declínio cognitivo. Em novas orientações publicadas em 2026, a Organização Mundial da Saúde destacou que até 45% do risco de demência pode estar associado a fatores modificáveis.

Cuidar da pressão arterial, do diabetes e do colesterol também é cuidar do cérebro. Praticar atividade física, não fumar, reduzir o consumo de álcool, manter uma alimentação equilibrada e dormir adequadamente fazem parte dessa proteção. Preservar a audição e a visão também é importante, porque essas limitações podem aumentar o isolamento e diminuir os estímulos recebidos pelo cérebro.
A vida social merece atenção especial. Conversar, conviver, participar de atividades em grupo, aprender algo novo, ler, estudar, dançar, tocar um instrumento ou desenvolver trabalhos manuais são formas de manter a mente ativa. Não existe um único jogo ou exercício milagroso: o cérebro se beneficia de uma vida rica em movimento, vínculos, curiosidade e propósito.
Também é preciso ter cuidado com promessas fáceis. Vitaminas, ômega-3 e suplementos não devem ser usados indiscriminadamente com a expectativa de prevenir demências. Na ausência de uma deficiência diagnosticada, a OMS não recomenda essa suplementação como estratégia de proteção cognitiva.
O acompanhamento longitudinal permite avaliar não apenas a memória, mas toda a história de saúde da pessoa. A atenção primária tem papel essencial nesse processo, identificando fatores de risco, reconhecendo alterações precoces, orientando as famílias e encaminhando para avaliação especializada quando necessário.
Planejar o envelhecimento é cuidar hoje da pessoa que desejamos ser amanhã. Não podemos controlar todos os fatores relacionados ao Alzheimer, mas podemos construir, desde agora, uma vida mais ativa, saudável, conectada e cheia de significado. Cuidar da memória começa muito antes do primeiro esquecimento.
Dra. Simone Neri
- Médica
- Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia
- Presidente do Instituto Casa Neri
- Médica matriciadora em Dermatologia na rede pública de saúde

