Doação de Sangue:novas regras, trazem mais oportunidades para salvar vidas

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Por – Dra Simone Neri

Uma cirurgia, uma emergência ou um tratamento oncológico pode depender da disponibilidade de sangue. Por isso, incentivar a doação deve fazer parte do planejamento permanente dos serviços de saúde. A solidariedade de quem doa precisa encontrar uma rede preparada para coletar, testar, armazenar e distribuir os hemocomponentes.

Desde 30 de setembro de 2026, estão em vigor novos critérios brasileiros de doação, estabelecidos pela Portaria GM/MS nº 11.685/2026. Entre as mudanças estão a redução de alguns períodos de impedimento e a possibilidade de doadores habituais continuarem doando após os 70 anos, mediante avaliação médica e cumprimento dos critérios específicos. A idade, sozinha, deixa de encerrar essa contribuição para quem já é doador regular.

Outra alteração envolve tatuagens, maquiagem definitiva e procedimentos estéticos invasivos, como toxina botulínica, preenchimento e microagulhamento. O prazo pode ser de sete dias quando o serviço consegue avaliar a segurança sanitária do procedimento. Se essa segurança não puder ser assegurada, o impedimento é de quatro meses. Piercings na boca ou na região genital exigem cuidado diferente: a candidatura à doação só pode ocorrer quatro meses após a retirada. Já após procedimentos endoscópicos, o prazo foi reduzido de seis para quatro meses. Essas condições precisam ser informadas na triagem.

As chamadas “canetas emagrecedoras” também merecem esclarecimento. Segundo a Nota Técnica nº 5/2026 do Ministério da Saúde, o uso isolado de medicamentos agonistas de GLP-1 não impede automaticamente a doação. Porém, início ou aumento recente da dose, sintomas gastrointestinais relevantes e sinais de desidratação exigem adiamento e avaliação. A orientação prevê pelo menos 14 dias após a introdução ou aumento da dose, ou após a resolução dos sintomas. O compartilhamento de canetas constitui outra situação de risco. Não se deve suspender o tratamento por conta própria para doar.

A ciência ajuda a compreender por que avaliar cada candidato é essencial. Um estudo brasileiro publicado na revista Vox Sanguinis analisou 560.528 doações na Fundação Pró-Sangue, comparando períodos antes e depois da mudança de 2020 para avaliação individual de risco. Não encontrou aumento significativo dos marcadores de HIV e hepatites B e C, mas observou aumento de marcadores de sífilis, reforçando a importância da vigilância. Outro estudo, com 1,66 milhão de doações em cinco hemocentros, encontrou estabilidade da incidência de HIV e não observou aumento do risco residual estimado de transmissão por transfusão. Esses resultados dizem respeito à mudança de 2020, e não comprovam antecipadamente os efeitos da atualização de 2026.

Para a gestão em saúde, há também avanços na rastreabilidade das bolsas e a possibilidade de ampliar a validade das plaquetas de cinco para até sete dias, quando cumpridos os requisitos de controle de qualidade. Essas medidas podem ajudar a reduzir perdas e melhorar a disponibilidade. Ainda assim, como os componentes do sangue têm validade limitada, a rede precisa de doações ao longo de todo o ano.

Quem deseja doar deve estar em boas condições de saúde, pesar pelo menos 50 quilos, estar alimentado e descansado e apresentar documento oficial com foto. Adolescentes a partir dos 16 anos precisam de autorização do responsável. A aptidão final depende da triagem no serviço de hemoterapia.

Se você deixou de doar por alguma restrição anterior, consulte o hemocentro: sua situação pode ter mudado. Doar sangue é oferecer a alguém a possibilidade de continuar sua história.

Dra. Simone Neri

  • Médica
  • Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia
  • Presidente do Instituto Casa Neri
  • Médica matriciadora em Dermatologia na rede pública de saúde

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