A saúde que não cabe nos stories

Colunistas Pryscila Souza
Por – Pryscila Souza

Imagine você, voltando para casa de metrô, depois de um dia exaustivo de trabalho, sabendo que ainda tem um longo caminho pela frente e que vai demorar pelo menos duas horas até chegar. O metrô, com vários estímulos olfativos e visuais, de alimentos ultraprocessados, praticamente te convida ao consumo. No meio deste cenário, você pensa na falta de tempo, na fome que já está grande, e acaba optando por comer algo ali mesmo. Para se sentir melhor com a decisão, surge o pensamento: “Hoje, eu mereço!”

Tenho visto muito nesses últimos tempos nas redes sociais: daily vlog, inúmeros produtos para skincare, cuidados com o cabelo, treinos variados, suplementação, higiene do sono- tudo prometendo ajudar você se tornar a sua melhor versão. Afinal, basta disciplina.

No meio dessa pressão por performar esteticamente, mascarada de cuidado com a saúde, eu me peguei refletindo sobre uma questão: quantas pessoas que eu conheço fazem uso de algum medicamento para a saúde mental?

Acredito que já tenha comentado por aqui que trabalho no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicana da USP, popularmente conhecido como Ipq. Obviamente, lá atendo diversas pessoas com algum transtorno ou adocecimento mental. Mas, durante uma conversa recente com uma amiga, começamos a refletir sobre quantas pessoas, no nosso círculo social, atualmente fazem uso de medicamentos por diagnósticos de ansiedade, depressão, burnout ou por terem passado por alguma situação traumática.

Nos deparamos, com diversos nomes, conseguimos listar amigos, família, colegas de trabalho. A lista cresceu rapidamente.

Agora, pense comigo, vivemos em uma era que a todo momento falamos sobre saúde. Criam-se regras para uma vida saudável: dormir no mínimo oito horas, beber dois litros de água por dia, comer mais proteína, fazer skincare de manhã, seguir cronograma capilar, treinar duas vezes por dia, suplementar até a vitamina X (que nem existe).

Mas, em meio a tantas recomendações, poucas vezes vejo as pessoas preocupadas em perguntar: como eu estou me sentindo? Existe uma razão para isso. Nessa rotina de stories, reels e influenciadores, muitas vezes esquecemos que há todo momento existe uma venda por trás daquele conteúdo. Nem sempre ela é explícita. Frequentemente acontece por associações que fazemos sem perceber: se ela toma aquela cápsula, por isso que ela tem esse corpo; se usa aquele produto, é por isso que tem umapele sem marcas.

Entretanto, a vida mostrada naqueles poucos segundos, não condiz com a realidade das 24 horas de um dia. Aquela pessoa pode ter aquele corpo porque já fez uma cirurgia plástica. Pode ter aquela pele devido a diversos procedimentos estéticos.

Esse tipo de conteúdo funciona como uma estratégia de divulgação: mostra o produto, marca, contexto e experiência de uma forma próxima, isso conecta, pois parece ser alguém “como nós” compartilhando sua rotina. A questão é que essa comparação constante pode acabar alimentando uma relação tóxica com o seu corpo, e inevitavelmente, respingar também na sua relação com a comida.

Por isso, hoje eu estou aqui para te lembrar de algo simples: está tudo bem. Está tudo bem dormir mais tarde porque você virou a noite conversando com uma amiga sobre a vida. Está tudo bem não fazer atividade física todos os dias. Não há problema em não tomar suplementos — muitas vezes, você nem precisa deles. E sim, em alguns dias vamos precisar de um comfort food. Talvez seja aquele bolo quentinho que a sua avó faz.

Isso também é autocuidado. Isso também é cuidar da saúde de verdade — especialmente daquela que influencia todo o resto: a saúde mental.

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