Câncer: a doença da longevidade – por que precisamos aprender a viver melhor durante o tratamento

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Por – Dra Simone Neri

Estamos vivendo mais. Esse é um dos maiores avanços da medicina e da sociedade moderna. No entanto, a longevidade também traz novos desafios para a saúde pública. Entre eles está o aumento dos casos de câncer. Parte desse crescimento está diretamente relacionada ao envelhecimento da população, já que o risco de desenvolver tumores aumenta com a idade. Mas outro fator também merece atenção: o estilo de vida moderno.
Alimentação inadequada, sedentarismo, excesso de exposição ao sol, tabagismo, consumo de álcool e níveis elevados de estresse são fatores que, ao longo dos anos, podem favorecer o desenvolvimento de diferentes tipos de câncer. Ou seja, além de estarmos vivendo mais, muitas vezes acumulamos hábitos que aumentam o risco de doenças crônicas.
Dados epidemiológicos mostram que a maioria dos diagnósticos de câncer ocorre após os 60 anos. Isso significa que, em algum momento da vida, muitos de nós poderemos enfrentar a doença — seja como pacientes, familiares ou cuidadores. Por isso, cada vez mais a medicina fala não apenas em tratar o câncer, mas também em prevenir, diagnosticar precocemente e garantir qualidade de vida durante e após o tratamento.
A boa notícia é que a oncologia evoluiu muito nas últimas décadas. Durante muito tempo, os tratamentos ficaram restritos principalmente à cirurgia e à quimioterapia. Esses métodos continuam sendo fundamentais, mas hoje contamos com novas estratégias que representam uma verdadeira revolução no cuidado do paciente com câncer: a imunoterapia e as chamadas terapias-alvo.
A imunoterapia estimula o próprio sistema imunológico do paciente a reconhecer e combater as células tumorais. Já as terapias-alvo atuam diretamente em alterações genéticas específicas das células do câncer, bloqueando seu crescimento. Essas abordagens permitem tratamentos mais personalizados e, muitas vezes, com menos efeitos colaterais que a quimioterapia tradicional.
Recentemente tive a oportunidade de participar do VI Simpósio de Oncologia Cutânea, realizado em São Paulo, um encontro que reuniu especialistas para discutir os avanços mais atuais no diagnóstico, tratamento e cuidado dos pacientes com câncer de pele. Mais do que falar sobre a doença em si, o evento trouxe uma reflexão importante: o cuidado com o paciente deve ir além do combate ao tumor e considerar também o bem-estar físico e emocional durante e após o tratamento.
Entre os temas apresentados, um dos mais inovadores foi o papel da microbiota intestinal na resposta aos tratamentos oncológicos. Pesquisas recentes mostram que as bactérias que vivem no nosso intestino podem influenciar diretamente a eficácia da imunoterapia. Pacientes com maior diversidade de bactérias benéficas tendem a responder melhor aos tratamentos e apresentam menor toxicidade, o que abre novas perspectivas para o futuro da oncologia.
Outro ponto fundamental discutido foi o cuidado com a pele durante o tratamento. Estima-se que até 90% dos pacientes oncológicos apresentem algum tipo de alteração cutânea, especialmente durante terapias modernas como imunoterapia e tratamentos-alvo. Essas reações podem causar desconforto e até levar à interrupção do tratamento. Por isso, especialistas reforçam a importância de medidas simples, baseadas em três pilares: higiene com produtos suaves, hidratação adequada e uso rigoroso de protetor solar.
Também chamou atenção a discussão sobre a interação entre procedimentos estéticos e tratamentos oncológicos. Preenchedores faciais, por exemplo, podem apresentar reações inflamatórias quando o paciente inicia determinadas terapias, especialmente imunoterapias. Nesses casos, a avaliação médica cuidadosa e a escolha de materiais reversíveis, como o ácido hialurônico, tornam-se fundamentais para garantir segurança ao paciente.

Esses avanços mostram que o tratamento do câncer hoje envolve uma visão cada vez mais ampla e integrada. Não se trata apenas de combater a doença, mas de cuidar da pessoa como um todo, buscando preservar sua qualidade de vida em todas as fases do tratamento.
Ao longo do simpósio, uma frase dita por um cirurgião oncológico ficou ecoando em minha mente. Ele lembrou que todo tratamento contra o câncer deve ter sempre um objetivo claro: buscar a cura quando possível, mas, acima de tudo, garantir qualidade de vida e dignidade para que o paciente atravesse esse momento da melhor forma possível.
Nem sempre a medicina consegue vencer a doença. Mas sempre pode cuidar da pessoa.
Essa reflexão me fez lembrar uma ideia frequentemente atribuída a Carl Jung, que dizia que, na prática da medicina, antes de tudo somos uma alma humana tocando outra alma humana.
Talvez seja exatamente isso que nunca podemos esquecer: mesmo quando não conseguimos salvar, sempre podemos acolher, aliviar o sofrimento e caminhar ao lado de quem enfrenta uma das fases mais difíceis da vida. Porque, no final, tratar o câncer também é cuidar da humanidade que existe em cada paciente.

Dra. Simone Neri é médica matriciadora de dermatologia da Secretaria da Saúde de Osasco e gestora em saúde pública pela FGV

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