Entre curtidas sem sentido e o vazio familiar

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Por – Gregório José

As ruas continuam cheias, mas perderam o som das conversas, o choque dos olhares, o reconhecimento do outro. Caminha-se em fluxo, como se todos obedecessem a um mesmo comando invisível: cabeça baixa, olhos fixos na tela, dedos que deslizam com mais intimidade do que qualquer aperto de mão. Já escrevi, em outros tempos, sobre esse comportamento que parecia passageiro. Hoje, não é mais distração; é modo de vida.

Especialistas em comportamento social alertam: não estamos apenas mais conectados, estamos emocionalmente deslocados. As relações humanas foram terceirizadas para plataformas digitais, que oferecem vínculos rápidos, descartáveis e, sobretudo, seguros. Seguros porque não exigem presença, escuta ou responsabilidade afetiva. A emoção virou produto. O afeto, espetáculo. Chora-se a separação de artistas que nunca saberão da existência de quem chora, acompanha-se com devoção o que comem no café da manhã, o que vestem, onde viajam, como se isso preenchesse algum vazio íntimo que insiste em crescer.

Enquanto isso, a realidade doméstica vai ficando em segundo plano. Panelas vazias não rendem engajamento, contas atrasadas não viralizam, a precariedade do dia a dia não cabe nos filtros. Há quem saiba tudo sobre a vida de uma pseudocelebridade, mas não saiba o nome do vizinho ao lado. Há quem discuta com paixão os conflitos encenados em programas como o BBB, mas desconheça ou simplesmente ignore as decisões políticas que determinam o preço do alimento, do transporte e do próprio futuro.

A alienação não é acidental; ela é estimulada. Quanto mais distraída a população, menos questiona. Troca-se cidadania por entretenimento, consciência crítica por torcida organizada. A política vira algo distante, entediante, “complicado demais”, enquanto o reality show oferece conflitos simples, vilões claros e finais editados. É mais confortável acompanhar a eliminação de um participante do que enfrentar a exclusão real imposta por políticas públicas mal conduzidas.

Nesse cenário, a solidão cresce disfarçada de conexão. Nunca se falou tanto, nunca se escreveu tanto, nunca se compartilhou tanto e, ainda assim, nunca se escutou tão pouco. O contato humano foi reduzido a reações automáticas, emojis e frases prontas. O tempo que antes pertencia ao encontro agora é sugado por um fluxo infinito de conteúdos que anestesiam, mas não alimentam.

O mundo segue lotado de gente e vazio de presença. Seguimos conectados, porém isolados, informados, mas desinteressados do essencial. Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja aprender a usar a tecnologia, mas reaprender a sentir, a olhar em volta e a perceber que, enquanto nos ocupamos excessivamente da vida exibida nas telas, a vida real, urgente, desigual e profundamente humana vai sendo abandonada à própria sorte, num silêncio cada vez mais ensurdecedor.

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