Um bom fim para o Bonfim

Colunistas Vitor Meira França

Por Vitor Meira França

Cresci em Osasco e, depois de muitos anos vivendo e trabalhando na capital, quis o destino que eu retornasse à cidade, agora para trabalhar aqui.

Tenho publicado artigos sobre economia, urbanismo e cidades no Diário do Comércio e no Caos Planejado nos últimos anos; logo que recebi o convite para colaborar também com o Correio Paulista – o qual aceitei prontamente –, fiquei pensando no que poderia falar neste meu primeiro artigo em um dos principais jornais da minha cidade natal…

Lembrei então dos meus primeiros dias de trabalho, vindo de São Paulo para Osasco de trem. Palmeiras-Barra Funda, Lapa, Domingos de Moraes, Imperatriz Leopoldina, Presidente Altino, Estação Osasco.

Ao sair do vagão, a imagem daquela construção abandonada roubava imediatamente minha atenção, acompanhada também por uma espécie de déjà-vu. Na infância e juventude, no caminho de carro do Km 18, bairro onde cresci, para São Paulo, ou voltando da capital para casa, lembro de passar sempre por um conjunto de prédios abandonados – o famigerado Residencial Nova Grécia, construído na década de 1970 e demolido somente em 2013.

Muitos anos depois, volto para a cidade e descubro que o pobre bairro do Bonfim, localizado entre o Rio Tietê e o centro da cidade, onde ficava o Residencial Nova Grécia, sofre novamente com o abandono de uma ruína em construção. Seria destino? Pois prefiro acreditar que não.

Fonte: Google Maps

O destino da nova construção abandonada seria abrigar a futura sede da Prefeitura de Osasco, o que poderia trazer movimento de pessoas e desenvolvimento para a região – a qual, vale lembrar, foi o ponto de partida para o desenvolvimento econômico da cidade, já que exatamente ali se encontrava a Hervy, primeira indústria de Osasco, cuja estrutura foi demolida em 2014.

Por causa do alto custo da transferência da administração municipal, o projeto foi abandonado e, desde então, novos destinos têm sido pensados para o prédio. Já se falou, por exemplo, em implantar um hospital naquela estrutura.

Mais importante do que se pensar no destino do prédio em si, porém, é planejar a revitalização daquela área como um todo, que, além da importância histórica, é bastante estratégica, localizada próxima a comércios, serviços, empregos e às linhas 8 e 9 do trem da ViaMobilidade, que ligam Osasco ao Centro de São Paulo e a bairros como Pinheiros, Vila Olímpia e Brooklin, que concentram grande parte dos empregos e serviços da capital.

O último censo do IBGE mostrou que Osasco é a quarta cidade com maior densidade populacional do país – vivem aqui mais de 11 mil habitantes por km². Contudo, enquanto muita gente vive em bairros distantes do centro, ainda carentes de infraestrutura, no Bonfim, na região central, vive pouca gente e há grandes vazios urbanos – como o terreno onde está localizada a construção abandonada.

Levar equipamentos públicos como hospitais, escolas, museus ou mesmo a administração municipal para regiões abandonadas pode ser um primeiro e importante passo para sua revitalização, mas definitivamente não é condição suficiente. Basta pensarmos na Luz, na região central de São Paulo, que conta com equipamentos maravilhosos e muito frequentados como a Pinacoteca, o Museu da Língua Portuguesa e a Sala São Paulo, mas, ainda assim, sofre com as ruas vazias, a violência e a sensação de insegurança – especialmente à noite.

É claro que não há fórmula mágica nem solução simples para a revitalização de áreas degradadas ou abandonadas e, em cada caso, deve-se levar em consideração as especificidades da região. É quase consenso entre urbanistas, porém, que a revitalização de uma área passa por uma equação que envolve, de um lado, uso misto da região – com imóveis comerciais e residenciais, empresas, escritórios, equipamentos públicos, comércios e serviços nos térreos dos prédios, abertos ao longo do dia todo –; e, de outro, muita gente frequentando e vivendo ali.

E este, me parece, seria um bom fim para o bairro do Bonfim: transformar-se em uma área rica em história, empregos, comércio, serviços, cheia de gente e vida nas ruas.

Na última década, também de acordo com o censo do IBGE, a população de Osasco cresceu relativamente mais do que a de São Paulo e a média da Região Metropolitana. Essa tendência deve se manter e a forma mais eficiente para a cidade crescer, com menores custos relacionados a mobilidade, infraestrutura e meio ambiente, é crescer nos arredores dos eixos de transporte público de massa – especialmente das estações de trem.

A região do Bonfim, assim, com incentivos públicos e um bom planejamento urbano, pode perfeitamente receber parte desse crescimento populacional esperado para Osasco nos próximos anos – inclusive já há um novo empreendimento imobiliário no bairro, uma primeira aposta no potencial da região.

O Bonfim, além disto, não deixa de ser uma espécie de cartão de visita de Osasco para quem chega à cidade de trem ou de carro pela Castelo Branco e pelas Marginais. E não fica bem para Osasco, tantos anos depois, ainda ter prédios abandonados como um de seus principais cartões de visita.

3 thoughts on “Um bom fim para o Bonfim

  1. Olá! Não é de se estranhar que, primeiro gastaram horrores com o início dessa construção, para depois constatarem que seria inviável. A final, para que existe departamento de planejamentos né? Mais uma vez, o dinheiro do contribuinte sendo usado, com total descaso e incompetência.

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