Um debate disfarçado de gordofobia

Capa Colunistas Helena Custódio

Vocês assistiram o programa que tem dado o que falar na internet? 

“Um Treinador vs 30 Gordos”, do canal Foco, virou um dos tópicos mais comentados das redes sociais nos últimos dias, especialmente no TikTok e Instagram. Mas, será que o programa realmente está contribuindo para a discussão saudável sobre obesidade e saúde, ou está reforçando estigmas perigosos?

Como colunista plus size não poderia deixar  de dar o meu parecer, vejo com preocupação esse tipo de programa. Discutir  saúde é legítimo. Incentivar hábitos equilibrados é necessário. Mas transformar essa conversa em espetáculo, carregado de frases de efeito e provocações, não contribui em nada.

Pelo contrário: reforça a ideia de que o corpo gordo é um inimigo a ser combatido, e não uma pessoa a ser respeitada. É preciso lembrar que ninguém melhora ouvindo ofensas. Dignidade e saúde precisam andar de mãos dadas.

E há outro ponto pouco comentado: esse discurso reverbera no comércio, nas ruas, nos ambientes de consumo. Quantas pessoas já deixaram de entrar em uma loja de roupas,em uma academia deixaram de ir a algum evento  por medo do julgamento? Quantas se calam em ambientes coletivos porque se sentem envergonhadas pelo próprio corpo? 

Cada vez que a gordofobia ganha palco, esses medos aumentam.

Se queremos falar de saúde, que seja de forma responsável. Com dados, com acolhimento, com médico presente, com políticas públicas, com incentivo real à qualidade de vida  e não com espetacularização da dor alheia.

Mas, ao meu ver, ele erra por abordar esses temas de forma simplista e sem sensibilidade. E é aí que entra o problema: uma conversa sobre saúde e corpo, quando mal conduzida, pode reforçar mais preconceitos do que abrir portas para a reflexão.

Como disse: 

A Dra. Laís Sellmer, psicóloga e co-fundadora do projeto “Saúde sem Gordofobia”.

“A saúde não tem tamanho; é preciso respeitar o corpo do outro e entender suas necessidades individuais.”

Nutricionista Erick Cuzziol

A obesidade é uma questão multifatorial que vai além da simples falta de disciplina; envolve fatores genéticos, psicológicos e sociais.”

Obesidade não é uma questão simples.
Sou defensora do direito de cada pessoa de ter o corpo que desejar, sempre com foco na saúde, é claro. Eu, pessoalmente, sou uma mulher acima do peso, e sim, sou gorda, mas isso não significa que minha saúde esteja comprometida. Faço exames regularmente, pratico exercícios físicos diariamente na academia, mantenho uma alimentação balanceada e, acima de tudo, continuo gorda e saudável.

A saúde não deve ser medida apenas pelo número na balança, mas por como nos sentimos por dentro e pelo cuidado que damos ao nosso corpo de maneira integral. O corpo gordo não é sinônimo de doença, assim como o corpo magro não é garantia de saúde. Cada corpo é único, e cada pessoa tem o direito de se sentir bem e cuidar de si da forma que escolher.

. Não se trata de romantizar a obesidade ou ignorar seus impactos na saúde, mas sim de reconhecer que o corpo humano é muito mais complexo do que a balança pode nos dizer. 

Guto Galamba defende a ideia de que “só não emagrece quem não quer” 

O que vi no programa foi uma abordagem de “tudo ou nada”: ou a pessoa emagrece ou é considerada incapaz ,doente,pecador. Isso é não só redutor, mas também injusto. A obesidade não é apenas resultado de “falta de disciplina”, como o treinador sugeriu. Ela está, sim, ligada a uma série de fatores genéticos, psicológicos e sociais, e é isso que precisa ser discutido de forma mais profunda.

Muitas vezes, a sociedade cria uma pressão enorme para que todos se enquadrem em um padrão de “corpo ideal”, o que nos afasta do verdadeiro objetivo: promover a saúde mental e física de forma equilibrada. Acredito que as pessoas têm o direito de ser felizes e saudáveis no corpo que têm, sem serem julgadas ou desrespeitadas por sua aparência. Durante anos, pessoas acima do peso foram constantemente retratadas como figuras trágicas, associadas a estigmas como preguiça, falta de autocuidado e doenças. 

O debate passou ainda por temas delicados, como o SUS gasta mais por causa de gordos e até religião.Guto Galamba mencionou o pecado da gula e chegou a sugerir que “quem gosta muito de Deus não seria gordo”.

Guto :O SUS não quebra por causa de gordos

 Embora o SUS enfrente dificuldades financeiras e logísticas, essas dificuldades não podem ser atribuídas exclusivamente aos corpos gordos. A crise do SUS envolve problemas estruturais que afetam todas as pessoas, independentemente de seu peso. 

“Nem todo gordo come demais”

Essa afirmação reflete uma verdade importante: a obesidade não é causada exclusivamente por comer demais. Fatores genéticos, hormonais, psicológicos e sociais também têm um papel fundamental no aumento de peso. Reduzir a obesidade a uma simples questão de “excesso de comida” é uma forma de desinformação que perpetua o estigma e impede um debate mais amplo sobre o tema. Cada pessoa tem uma história única e, por isso, é necessário tratar a obesidade de maneira mais empática e baseada em evidências científicas.

Por fim, a mensagem que eu gostaria de deixar é a seguinte: não é sobre atacar, criticar ou menosprezar o corpo do outro. A saúde não é um corpo “perfeito”, mas um corpo bem cuidado, respeitado e que tem a liberdade de ser o que for, sem ser alvo de estigmas. A sociedade precisa avançar para um lugar onde todos tenham espaço para se cuidar, sem medo de serem julgados, mas com consciência de que ser saudável vai além de números e padrões.

Precisamos de mais respeito e empatia, e menos discurso de ódio e preconceito.

Helena Custodio – Influencie e Mentora de Negócios 

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