
No recente Summit Saúde & Bem Estar Estadão, especialistas reunidos destacaram que as mudanças climáticas não são mais um tema abstrato ou futuro — elas já se encontram presentes no cotidiano da saúde pública. Destaco aqui três grandes frentes de impacto que merecem atenção especial, sobretudo para a população de cidades como Osasco: vetores de doenças tropicais, agravamento de enfermidades negligenciadas e o papel da poluição atmosférica como fator oncogênico.
1. Crescimento e expansão de vetores de doenças tropicais
Grandes variações de temperatura, chuvas irregulares, mais umidade ou secas prolongadas — todas mudanças previstas e observadas em função do aquecimento global — favorecem o aumento da proliferação de mosquitos e outros vetores. No Brasil, isso significa risco ampliado para enfermidades como Dengue, Zika, Malária e outras arboviroses.
A mudança de habitat dos vetores — por exemplo, penetração em áreas urbanas ou em altitudes/latitudes até então menos vulneráveis — implica que municípios como o nosso devem se antecipar. A dinâmica observada indica que esse aumento não será uniforme geograficamente, mas será forte nos trópicos, onde já há condições favoráveis.
Para a população de Osasco, isso exige que o sistema de saúde e de atenção primária estejam preparados com vigilância vetorial, diagnóstico rápido e educação em saúde, evitando que surtos considerados “sazonais” se tornem epidemias mais amplas.
2. Doenças negligenciadas e as alterações ambientais
Além das arboviroses, as alterações no clima e no ambiente favorecem o avanço ou o reaparecimento de doenças consideradas negligenciadas ou de difícil controle. No Brasil, estamos falando, por exemplo, de Hanseníase e Tuberculose.
Embora nem todos os estudos façam trajetórias diretas entre clima e essas doenças, sabemos que o impacto sobre saneamento, sobre vulnerabilidade social, sobre deslocamentos humanos e habitações inadequadas — todos fatores agravados pelas alterações climáticas — acabam agravando o perfil de risco.
Por isso, a integração entre programa de dermatologia comunitária, atenção primária e políticas ambientais torna-se ainda mais relevante: prevenindo não apenas casos específicos, mas o ambiente que favorece seu surgimento ou agravamento.
3. Poluição do ar como fator cancerígeno e módulo de dano à saúde
Durante o Summit, ficou claro também que a poluição atmosférica — intensificada por queimadas, transporte urbano, indústrias e uso de combustíveis fósseis — se conecta diretamente com o quadro climático e com os impactos à saúde. Em particular, a IARC já classificou a poluição do ar externo como cancerígeno para humanos. Inca+1
Estudos recentes mostram que mesmo pessoas que nunca fumaram podem apresentar risco maior de câncer de pulmão se expostas à poluição do ar por longo prazo.
Além disso, a poluição agrava doenças respiratórias e cardiovasculares, que por si só já são relevantes em contexto urbano como o nosso.
Para a prática dermatológica e médica mais ampla, isso significa que não se trata apenas de “proteger a pele do sol” ou “tratar manchas”: estamos diante de uma emergência mais ampla, em que o meio ambiente — o ar que respiramos, a água, o solo — se apresenta como determinante de saúde.
Conclusão e chamada à ação
O que o Summit reforçou é que saúde pública, meio ambiente e clima já são indissociáveis. O aquecimento global, as chuvas irregulares, as enchentes e secas, os vetores que se adaptam, a poluição que se agrava — todos esses vetores se combinam para aumentar a carga de doenças crônicas, infecciosas e negligenciadas.
Em Osasco e região, isso exige:
vigilância ativa e integrada dos vetores e doenças negligenciadas;
reforço das campanhas de educação em saúde (como nas ações de dezembro laranja que lidero) para mostrar que “prevenir câncer de pele” é também cuidar do ambiente;
articulação entre o setor saúde e meio ambiente, mobilizando políticas municipais que reduzam emissões, queimadas, e melhorem saneamento básico.
Como médica dermatologista e responsável por ações comunitárias, vejo que nosso papel vai além do consultório: somos agentes na educação, mobilização e articulação social em defesa da saúde da população. E o meio ambiente saudável é um dos pilares dessa defesa.
Convido leitores e leitoras do Correio Paulista a integrarem essa visão: cuidar da pele, do corpo e do ambiente caminham juntos. Só assim poderemos garantir uma cidade mais saudável, um clima mais estável e vidas mais longas e com qualidade.
Dra. Simone Neri
Médica Membro da Sociedade de Dermatologia
Matriciadora de Dermatologia da Secretaria de Saúde de Osasco
Presidente do Instituto Casa Neri (ONG de acolhimento e saúde pública)

