“Crueldade contra animais é crime — e ignorá-la é adoecer toda a sociedade”

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Pot – Dra. Simone Neri

O caso do cãozinho Orelha não é apenas um episódio isolado de maus-tratos contra um animal. Ele é um sinal de alerta grave, que nos obriga a olhar além do ato em si e encarar um problema maior, silencioso e perigoso: os distúrbios emocionais em jovens que sentem prazer em causar sofrimento, fenômeno conhecido como zoosadismo.

A crueldade contra animais não é brincadeira, não é curiosidade e não é “fase”. É um marcador precoce de sofrimento psíquico profundo, associado à perda da empatia, dificuldades emocionais severas e, muitas vezes, a históricos de violência, negligência ou abandono. A ciência já demonstrou: a violência raramente começa grande. Ela é ensaiada. E, em muitos casos, começa contra quem não pode se defender.

Como médica e gestora em saúde, afirmo com clareza: esse distúrbio precisa ser tratado de forma estratégica, como questão de saúde pública, proteção social e segurança coletiva. Não basta indignação momentânea. É preciso método, política pública e ação coordenada.

Isso exige rever os relacionamentos que cercam esses jovens — família, escola, ambientes virtuais e sociais. Exige estudar a fundo as causas, identificar fatores de risco, compreender o contexto emocional e agir antes que a violência escale. Nada disso surge do nada.

Também é essencial socorrer as vítimas de maneira efetiva. Os animais precisam de resgate imediato, acolhimento, tratamento e justiça. Proteger a vítima é o primeiro compromisso de uma sociedade saudável.

Precisamos, ainda, rever o modelo de punições. A responsabilização é necessária, porque maus-tratos são crime. Mas punição isolada, sem avaliação e acompanhamento, não previne. O enfrentamento real passa por responsabilizar, avaliar, tratar e interromper o ciclo da violência. Impunidade adoece a sociedade. Punição sem consciência também.

E há um ponto que não pode mais ser ignorado: os pais e responsáveis precisam ser incluídos no cuidado. Muitas vezes, eles também estão adoecidos, ausentes, sobrecarregados ou presos a padrões de violência que se repetem de geração em geração. Cuidar da família é parte do tratamento. Orientar, acompanhar e, quando necessário, responsabilizar.

A Bíblia nos lembra que “o justo cuida dos seus animais” (Provérbios 12:10). Onde há prazer na dor do outro, falta humanidade. E onde falta humanidade, é dever da saúde, da educação e da justiça intervir.

Que o caso do Orelha não seja apenas mais uma manchete que o tempo apaga. Que ele se transforme em marco de consciência, prevenção e ação.
Proteger os animais é proteger os jovens.
E proteger ambos é cuidar da sociedade como um todo.

Dra. Simone Neri
Médica | Gestora em Saúde
Coluna Saúde para Todos

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