Dia Mundial de Combate à Obesidade: um desafio coletivo que exige ação imediata

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Por – Dra. Simone Neri

No Ministério da Saúde, a obesidade é reconhecida oficialmente como um dos maiores problemas de saúde pública da atualidade. E não é por acaso. Os números revelam um cenário que precisa ser enfrentado com responsabilidade, planejamento e compromisso coletivo.

Tal qual uma orquestra, o corpo humano funciona como um sistema integrado, em que cada parte exerce sua função em prol do todo. Água corporal, massa magra, peso e percentual de gordura compõem essa harmonia biológica. A gordura corporal, em níveis adequados, é essencial. Mas quando ultrapassa limites saudáveis, o sinal de alerta precisa ser acionado.

Do ponto de vista conceitual, tanto o sobrepeso quanto a obesidade referem-se ao acúmulo excessivo de gordura corporal. A obesidade, porém, é mais do que um número na balança: é fator de risco para doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão e diversos tipos de câncer. Além das complicações clínicas, há impactos sociais e psicológicos importantes, muitas vezes marcados por estigmatização e discriminação.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (2020), mais da metade dos adultos brasileiros — 60,3%, o equivalente a cerca de 96 milhões de pessoas — apresenta excesso de peso. Entre as mulheres, a prevalência é ainda maior (62,6%). Entre adolescentes de 15 a 17 anos, 19,4% estão com excesso de peso e 6,7% já vivem com obesidade.

Dados do Sistema Nacional de Vigilância Alimentar e Nutricional mostram que, entre crianças acompanhadas na Atenção Primária, 33,9% das que têm entre 5 e 9 anos apresentam excesso de peso — e 17,8% já têm obesidade. Estamos falando de uma geração que cresce exposta a ambientes obesogênicos: excesso de telas, sedentarismo e ampla oferta de alimentos ultraprocessados, ricos em gorduras, sódio e aditivos químicos.

Como médica e gestora em saúde pública, afirmo: a obesidade não é resultado exclusivo de escolhas individuais. Ela é fortemente influenciada pelo ambiente em que vivemos, pelas condições socioeconômicas, pela cultura alimentar e pelo acesso — ou falta dele — a alimentos de qualidade.

O próprio Ministério da Saúde orienta que, diante do atual quadro epidemiológico, sejam prioritárias as ações de promoção da alimentação adequada e saudável, prevenção da obesidade e construção de ambientes alimentares mais saudáveis.

O Guia Alimentar para a População Brasileira traz uma regra de ouro simples e poderosa: prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados. Valorizar a comida de verdade é valorizar saúde, cultura, agricultura familiar e sustentabilidade.

Alimentação saudável não é apenas o que está no prato. Envolve o modo de comer:

  • realizar refeições em ambientes tranquilos;
  • comer devagar e com atenção;
  • evitar distrações;
  • compartilhar a refeição em companhia.

Esses hábitos favorecem a digestão e ajudam a regular naturalmente a quantidade ingerida. O oposto ocorre com os ultraprocessados: produtos formulados para serem consumidos rapidamente, muitas vezes em excesso, e associados ao aumento do risco de obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes e câncer.

A escola também ocupa papel estratégico. Cantinas e lanches escolares precisam refletir compromisso com a saúde: menos guloseimas e salgadinhos industrializados, mais frutas, preparações caseiras e alimentos frescos. Formar hábitos saudáveis na infância é investir no futuro do país.

A obesidade infantil, além de trazer repercussões clínicas importantes ao longo da vida, sobrecarrega o SUS com custos crescentes no tratamento de suas complicações. Prevenir é, portanto, uma decisão inteligente sob o ponto de vista humano, social e econômico.

O caminho mais seguro, saudável e sustentável para conter o avanço da obesidade em todas as idades é unir alimentação adequada e prática regular de atividade física. Mas isso exige políticas públicas consistentes, ambientes urbanos que favoreçam o movimento, educação alimentar contínua e engajamento das famílias.

Neste Dia Mundial de Combate à Obesidade, fica o convite à reflexão: a saúde é uma construção coletiva. Precisamos transformar ambientes, fortalecer políticas públicas e promover escolhas possíveis e acessíveis.

Cuidar do peso é, antes de tudo, cuidar da vida — com responsabilidade individual, mas, sobretudo, com compromisso social.

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