Vacinas: por que um episódio de medo não pode apagar séculos de proteção

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Dra. Simone Neri
Médica Matriciadora de Dermatologia e Presidente do Instituto Casa Neri
Coluna Saúde para Todos

Em tempos em que uma notícia sobre possíveis efeitos adversos pode gerar insegurança, vale lembrar que poucas intervenções médicas transformaram tanto a humanidade quanto as vacinas. Graças a elas, doenças que antes ceifavam milhões de vidas hoje estão controladas, e algumas até desapareceram do planeta.

Nas últimas semanas, a suspensão temporária de uma vacina contra a dengue após a investigação de casos graves trouxe preocupação para muitas pessoas. É natural que isso aconteça. Quando o assunto é saúde, especialmente quando envolve nossos filhos, pais e avós, o medo costuma falar mais alto. No entanto, é importante olhar para a história com serenidade e compreender que um episódio isolado não pode apagar séculos de proteção e milhões de vidas salvas.

Antes das vacinas, doenças como varíola, poliomielite, sarampo, difteria e tétano eram responsáveis por epidemias devastadoras. Famílias inteiras conviviam com a incerteza de perder seus filhos para doenças que hoje podem ser prevenidas. Muitas crianças não chegavam à idade adulta, e milhares de pessoas sobreviviam com sequelas permanentes.

A história da vacinação começou em 1796, quando o médico inglês Edward Jenner observou que pessoas expostas à varíola bovina pareciam protegidas contra a varíola humana. Sua descoberta deu origem à primeira vacina da história e abriu caminho para uma revolução na medicina.

Desde então, os resultados foram extraordinários. A varíola foi erradicada do planeta em 1980 graças à vacinação em massa. A poliomielite, que durante décadas deixou milhares de pessoas com paralisias permanentes, está próxima da erradicação mundial. Doenças que antes lotavam hospitais tornaram-se raras em muitos países, permitindo que gerações inteiras crescessem com mais saúde e segurança.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, as vacinas salvam milhões de vidas todos os anos. Mais do que prevenir doenças, elas evitam internações, reduzem sequelas, diminuem gastos com saúde pública e protegem toda a comunidade, especialmente aqueles mais vulneráveis.

Isso não significa que as vacinas sejam isentas de riscos. Como qualquer medicamento ou tratamento médico, eventos adversos podem ocorrer. A diferença é que as vacinas estão entre os produtos mais rigorosamente monitorados pela ciência. Quando surge qualquer suspeita de problema, os sistemas de vigilância entram em ação, investigam os casos e, se necessário, suspendem temporariamente a aplicação para garantir a segurança da população.

Na verdade, quando uma vacina é investigada ou temporariamente suspensa, isso não demonstra falha da ciência, mas sim que os mecanismos de segurança estão funcionando. A transparência e o monitoramento contínuo são parte fundamental da confiança que devemos ter nos programas de imunização.

A ciência avança justamente porque questiona, investiga e busca respostas. Ter dúvidas é legítimo. O que não podemos fazer é permitir que o medo momentâneo nos faça esquecer uma das maiores conquistas da história da humanidade.

A confiança na ciência não significa ignorar preocupações ou deixar de investigar eventos adversos. Significa compreender que a vigilância constante faz parte da segurança. A história das vacinas nos ensina que, apesar dos desafios, elas continuam sendo uma das ferramentas mais poderosas para proteger vidas e construir um futuro mais saudável para todos.

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