
O semáforo fechou. Os segundos seguintes de luz vermelha me fizeram olhar para o lado. Na calçada, sob a sombra de uma árvore, um casal de moradores em situação de rua trocava afetos.
Um acariciava o rosto do outro. Ambos já não tinham a pele lisa. Havia marcas de que o tempo havia passado para os dois.
Seria o tempo uma prova ou uma declaração de amor?
A sensação era de que, naquele instante, os ponteiros do relógio decidiram descansar um pouco. Em meio ao caos do trânsito, ao vai e vem dos pedestres, ao barulho e à correria do dia a dia, aquela cena parecia ter encontrado um pequeno intervalo para existir.
Um presente para os meus olhos.
Talvez seja isso que as cidades façam o tempo todo: entreguem cenas que estão diante de nós, mas que quase nunca enxergamos.
A cidade é dura. O asfalto é quente. A fumaça incomoda. A pressa parece determinar o ritmo de quase tudo. E, no meio disso, há pessoas que passam despercebidas, como se fizessem parte da paisagem.
Mas não fazem.
Sabe quando o mato insiste em sobreviver no espaço mínimo que existe entre o asfalto quente e a sarjeta?
O lugar é áspero, difícil, duro. Ainda assim, alguma coisa insiste em nascer ali.
Talvez o afeto seja assim também.
Aquela cena me fez pensar que o amor continua encontrando espaço, mesmo onde quase ninguém procura por ele.
E os lugares que são pontos de encontro de casais e namorados?
Praças.
Calçadas.
Bares.
Restaurantes.
A cidade também é feita desses encontros. De mãos dadas, olhares demorados, abraços rápidos, conversas em mesas de plástico ou bancos de praça. São pequenas cenas que aparecem no meio da paisagem cinza e, por alguns instantes, parecem mudar a maneira como enxergamos o lugar.
Talvez a poesia das cidades esteja justamente nisso: naquilo que acontece apesar da dureza.
O semáforo abriu. Segui viagem.
Mas ainda pude ver o sorriso do casal. Eles continuavam se olhando e se acariciando, enquanto ao redor tudo seguia no seu ritmo, duro, barulhento e apressado.
Sem que ninguém estivesse olhando.
Talvez seja essa a maior ironia: pessoas que tantas vezes são invisíveis para a cidade encontraram, uma na outra, alguém que as enxergasse.
E, por alguns segundos, eu também enxerguei.

