Por – Gregório José
A eleição de 2026 deixou alguns partidos diante de uma verdade que a política brasileira passou anos tentando esconder atrás de discursos inflamados, entrevistas teatrais, provocações calculadas e uma avalanche de postagens nas redes sociais. PSOL, PDT, Solidariedade, Missão e Avante não conseguiram superar a cláusula de desempenho e agora terão de enfrentar uma realidade que nenhum discurso bonito consegue maquiar. A regra pode e deve ser discutida, afinal não existe democracia saudável sem pluralidade, mas também não dá para ignorar que o Brasil passou décadas criando siglas que muitas vezes pareciam existir mais para garantir espaço institucional, tempo de televisão e recursos públicos do que para apresentar uma força política organizada e capaz de sobreviver sem depender de um ou dois personagens.
O caso do PSOL é daqueles que parecem ter sido escritos por um roteirista de humor político. O partido elegeu Érica Hilton como a mulher mais votada do país, com mais de um milhão de votos, conseguiu resultados expressivos em estados importantes e ainda assim ficou fora da cláusula por apenas 185 votos no Espírito Santo. Cento e oitenta e cinco votos. É quase nada diante de milhões de eleitores, mas é o suficiente para mostrar que eleição não se vence apenas com votação espetacular de uma celebridade política. É preciso transformar popularidade individual em estrutura partidária e voto concentrado em presença nacional.
E aqui está o dedo na ferida. Durante anos, diversos partidos descobriram que uma língua afiada pode valer mais do que um programa de governo. Político que provoca ganha manchete. Político que humilha adversário ganha vídeo. Político que enfrenta jornalista ganha milhões de visualizações. Político que fala o que ninguém espera ouvir vira personagem. Jair Bolsonaro entendeu essa lógica como poucos. Muito antes de chegar à Presidência, construiu notoriedade justamente pela maneira direta, sarcástica, provocadora e frequentemente agressiva de participar de entrevistas. Ele transformava perguntas em confrontos, adversários em alvos e cada declaração controversa em combustível para a próxima aparição na mídia. Funcionou porque havia uma parcela da sociedade cansada do político que fala durante dez minutos e não consegue dizer absolutamente nada.
O problema é que audiência não é organização política e viralização não é bancada parlamentar. A política brasileira está cheia de personagens que aprenderam a dominar o microfone, mas não aprenderam a construir estruturas capazes de sobreviver quando o personagem desaparece. O PDT perdeu espaço depois da saída de Ciro Gomes. O Missão apostou alto na candidatura de Renan Santos e terminou elegendo apenas Kim Kataguiri. Avante e Solidariedade também ficaram pelo caminho. Até o Novo, que nasceu prometendo distância do dinheiro público, acabou descobrindo que disputar eleições custa dinheiro e que discurso ideológico não paga sozinho a conta de uma campanha.
A urna é menos impressionável do que as redes sociais. Ela não se importa com número de seguidores, não compartilha cortes de entrevistas e não se emociona com frases de efeito. Ela simplesmente conta votos. E quando termina a contagem, a fantasia acaba. Fica a realidade. Partido que não tem voto suficiente perde espaço. Líder que não consegue transferir sua popularidade para uma legenda deixa um vazio. E discurso que não se transforma em organização termina exatamente onde começou, diante de um microfone.
A política pode nascer de uma frase forte, mas não sobrevive apenas de frases fortes. Precisa de projeto, estrutura, candidatos competitivos, presença nacional e capacidade de convencer o eleitor quando a câmera está desligada. O resto é barulho. E a urna tem uma crueldade admirável. Ela espera o barulho acabar para finalmente dizer quem realmente tem força.
Gregório JoséJornalista/Radialista/FilósofoPós Graduado em Gestão EscolarPós Graduado em
Ciências Políticas
Pós Graduado em Mediação e ConciliaçãoMBA em Gestão Pública
