Dois Jogos, Uma Cidade

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Por – Eliabe Visa

Em poucos minutos, o que parecia ser apenas um trajeto tranquilo por um bairro da periferia de São Paulo transformou-se em um verdadeiro caos.

Gente.
Carros.
Motos.
E eu ali.

Sem conseguir me mover. Nem o carro. Nem eu.

Meus pensamentos queriam voar. Meu corpo queria reagir. O carro ansiava por seguir. Mas nós três permanecíamos parados, no Jardim Elisa Maria, na Brasilândia, em meio a um cenário que mudara em questão de segundos.

Sabe quando você está caminhando em um dia de sol e, de repente, começa a chover? Ou quando está dirigindo em uma avenida livre e, sem perceber, entra em um congestionamento?

Foi exatamente assim.

Poucos minutos antes, o clima era de festa. O Brasil havia acabado de vencer o Japão de virada. A rua estava tomada pelo clima de Copa do Mundo. Buzinas. Gritos. Pessoas comemorando, querendo esticar aquele momento por mais tempo. Até que tudo mudou.

Uma ação policial tentou dispersar um grupo reunido em uma das ruas. A reação foi imediata.

Todos correram.
Na minha direção.

Os rostos ainda carregavam a alegria da vitória da Seleção, mas agora também exibiam medo, tensão e adrenalina.

No meio da correria, ouvi alguém dizer:
— Não se pode nem comemorar a vitória da Seleção?

Quem conhece a Brasilândia sabe que a região costuma receber os “fluxos”, encontros onde o funk domina a noite. Naquele momento, porém, a música deu lugar ao barulho da correria.

Meu pensamento era um só.
Sair dali.

E parecia que todos pensavam o mesmo. As pessoas corriam. Os carros tentavam encontrar uma saída. As motos passavam por qualquer espaço possível. Cada um seguia para um lado. Por alguns minutos, ninguém sabia qual era o caminho.

Depois, como uma chuva de verão que chega de repente e vai embora do mesmo jeito, tudo começou a voltar ao normal. As pessoas seguiram seus caminhos. Os carros voltaram a andar. O trânsito fluiu novamente. E eu também.

Naquele dia, vivi dois jogos. O primeiro terminou com a vitória do Brasil sobre o Japão. O segundo começou quando deixei de ser apenas um motorista e passei a fazer parte da cena. Talvez essa seja a maior semelhança entre São Paulo e o futebol: nenhum dos dois avisa quando o jogo vai mudar.

Em questão de minutos, um gol muda o estádio. Um protesto muda a Avenida Paulista. Uma ação policial muda uma rua da Brasilândia. O que era festa vira tensão. O que era caminho vira espera. O que era movimento vira silêncio. E quem está ali não escolhe entrar no jogo, apenas percebe que já está jogando.

Depois de dois sustos no mesmo dia, fiz o que qualquer paulistano faz quando a vida volta a andar.

Liguei o motor.
Engatei a marcha.
Acelerei.
E segui.

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