
No ano de 1991, recém-liberto do apartheid, Nelson Mandela desembarcou no Brasil em uma jornada de esperança. Passou por Brasília, Rio de Janeiro, mas foi em São Paulo que sua presença se imortalizou. No dia 2 de agosto, o Estádio do Pacaembu, repleto de vida, foi palco de um show em sua homenagem. Entre aplausos e lágrimas, Maria da Paixão de Jesus, com a força de sua voz e sua arte, se uniu na apresentação à Denise Assumpção, irmã de Itamar Assumpção, para dar vida a um discurso profundo de resistência. Cada palavra era um pulsar de dignidade, uma celebração da negritude, um hino à liberdade. Naquele instante, Maria da Paixão e Denise mostraram que a arte tem o poder de libertar, de unir e de acender a chama da resistência e consciência.

O discurso histórico
“A Cidade de São Paulo na data de hoje, dia 2 de agosto de 1991, esta vivendo um grande momento histórico. Estamos recebendo a ilustre visita de Nelson e Winnie Mandela. Essas presenças estreitam ainda maisos laços entre o Brasil e a Africa, porque a nossa lutaé a mesma. Lutamos contra todos os tipos de preconceitos Lutamos contra todas as formas de racismo. Com força raça e gana, com manha, graça e sonho. Raiz sempre. A luta pela liberdade é o elo que liga a vocação libertaria de Mandela aos povos do Brasil e da africa do Sul. A minha liberdade é a sua liberdade.Viva Nelson Mandela!
Maria da Paixão de Jesus foi dessas artistas que não apenas ocuparam os palcos — elas os transformaram. Nascida em 3 de abril de 1953, em Bocaiúva, Minas Gerais, fez de Osasco sua morada afetiva e cultural. Aqui construiu uma trajetória marcada por talento, resistência e identidade.
Dama da arte osasquense, Paixão foi atriz, cantora, dançarina e militante da cultura negra. Sua presença em cena era mais do que interpretação: era afirmação. Sua voz ecoava como canto de liberdade; seus gestos, carregados de ancestralidade, afirmavam com orgulho a negritude que ela sempre fez questão de exibir — no figurino, na postura e na vida.
Nos palcos, brilhou em montagens emblemáticas como Morte e Vida Severina e Ópera do Malandro, onde deu vida à inesquecível Jussara Pé de Anjo. Na televisão, participou de novelas e séries, integrando uma geração de artistas que abriram caminhos para a presença negra na dramaturgia brasileira. Foi também uma das primeiras atrizes negras a ocupar espaço como garota-propaganda, rompendo barreiras em tempos ainda mais desafiadores.
Nos anos 80, tornou-se voz ativa na luta por visibilidade da população negra, idealizando o Projeto Zumbi, na Praça da Sé, e participando de importantes movimentos culturais. Fundadora da Banda Barraco 37, entre 1983 e 1990, também deixou sua marca na música. Mais tarde, atuou na gestão pública, contribuindo com a cultura do município de Osasco.

Sua trajetória foi marcada por superação, reinvenção e coragem. Enfrentou dificuldades, recomeçou quando foi preciso e nunca abandonou a arte como missão de vida.
Sua história não é apenas biografia — é símbolo. É a saga de uma mulher negra que fez da própria existência um ato de resistência e beleza.
Rainha dos palcos, seja em Osasco ou no mundo, Maria da Paixão continua a nos lembrar que aqui é celeiro de cultura. Aqui é Osasco.
E nossa Maria maior, nos deixou em 18 de fevereiro de 2022 um dia antes do aniversario da cidade que ela tão bem representou, com luta, paixão e calor. Infelizmente, uma cidade que não presta as devidas homenagens a sua diva. Ano passado, por exemplo, uma exposição em sua homenagem foi divulgada, porém, inacreditavelmente, nada foi feito, ignorando a sua história e sua importancia cultural. Alias, para a Secretaria de Cultura de Osasco, Maria não passará de nome num camarim frio e sem paixão, no abandonado e silencioso, Teatro Municipal de Osasco.

Mas a Arte resiste: Bloco Nóz Marias, homenageia Maria da Paixão domingo no IAPI.
E se Maria da Paixão fez dos palcos sua morada, agora é a rua que se transforma em altar de celebração à sua memória.
O Bloco Maria Vai Com as Outras, idealizado pela Nóz Marias — coletivo formado por mulheres de Osasco, que desenvolvem um trabalho potente com manifestações da cultura popular afro-brasileira como coco, samba de roda, maracatu, macumba, religiosidade, ancestralidade e memória — presta, neste ano, uma homenagem mais que merecida à artista.
No próximo domingo, no bairro do IAPI, em Osasco, o batuque ecoará como extensão da própria trajetória de Maria da Paixão. Não é apenas uma apresentação. É um ato de reverência. É a continuidade de uma história que ela ajudou a escrever com o corpo, com a voz e com a coragem.
Maria sempre foi movimento. Sempre foi rua, palco e resistência. E nada mais justo que seu nome agora ecoe num bloco que celebra justamente aquilo que ela viveu intensamente: a cultura negra como força, como identidade e como celebração da vida.
Venha fazer parte dessa homenagem dia 22 de fevereiro, à partir das 14hs.
Local: Praça Benedito Lázaro da Silva, I.A.P.I. – Osasco – SP

