
Não é de hoje que Osasco convive com uma contradição incômoda: uma cidade rica em produção cultural, mas pobre em reconhecimento aos seus próprios artistas. Historicamente, o poder público prefere importar nomes já consagrados de fora para preencher agendas oficiais, enquanto quem cria, pesquisa, ensina e mantém viva a cultura local acaba restrito à resistência, aos eventos independentes e à famosa “força do corre”.
Esse cenário, embora injusto, moldou artistas que aprenderam a caminhar com as próprias pernas. E é exatamente nesse contexto que surge — e cresce — o Nóz Marias, grupo formado por mulheres de Osasco que há quatro anos desenvolve um trabalho potente com manifestações da cultura popular afro-brasileira: coco, samba de roda, macumba, religiosidade, ancestralidade e memória.
Enquanto faltam palcos na cidade, o grupo conquista convites fora dela. Nesta semana, as Nóz Marias atravessam fronteiras simbólicas e geográficas ao levarem sua arte para Brasília, onde participam de uma série de eventos independentes e dividem experiências com a Mestra Martinha do Coco, uma das grandes referências vivas desse universo cultural.
Martinha do Coco é mais do que uma artista: é guardiã de saberes tradicionais, referência do coco de roda, símbolo da resistência feminina dentro das culturas populares nordestinas. Sua trajetória é marcada pela oralidade, pelo tambor, pelo chão batido e pela permanência de uma cultura que insiste em sobreviver mesmo quando o poder insiste em ignorar. O encontro entre a Mestra Martinha e as Nóz Marias não é apenas um show — é um gesto político, ancestral e simbólico.
Mas talvez o capítulo mais revelador dessa história esteja fora do palco.
Para conseguir chegar a Brasília, as próprias integrantes do grupo precisaram se mobilizar financeiramente. Sem apoio institucional, sem patrocínio, sem editais, as Nóz Marias fizeram o que sempre fizeram: criaram. Produziram cocada artesanal, feita por elas mesmas, vendida pote a pote, para arrecadar o dinheiro necessário para custear a viagem.





É o coco que financia o coco.
É a cultura popular sustentando a própria cultura popular.
Uma imagem bonita, poética — e ao mesmo tempo dura. Porque ela escancara o quanto a arte local ainda é tratada como detalhe, quando na verdade é identidade.
Enquanto Osasco segue consumindo cultura importada, suas artistas seguem exportando talento, força e história. Vão para Brasília levando na bagagem não apenas instrumentos e figurinos, mas também o retrato fiel de uma cidade que ainda precisa aprender a reconhecer quem a constrói culturalmente todos os dias.


As Nóz Marias vão.
Os tambores seguem.
A cultura resiste.
A pergunta que fica é: até quando Osasco vai aplaudir de longe aquilo que nasce aqui?

