
Querelas do Brasil, a canção de 1978 dos mestres Aldir Blanc e Mauricio Tapajós, eternizada na voz de Elis Regina, critica a desconexão do Brasil com a sua própria realidade. É uma reflexão sobre desconhecer a identidade e o próprio território.
Pois é, estamos em 2026 e é impressionante: o Brasil ainda não conhece o Brasil.
Mais uma vez estamos diante de tragédias que chamam de climáticas. Climáticas? Sério mesmo? Ninguém sabe que vivemos num país tropical, abençoado por Deus, onde o verão é chuvoso e o inverno é seco? Desde a escola aprendemos isso. Está nos livros, está na história, está na experiência de qualquer brasileiro que já perdeu um móvel numa enchente ou sofreu com torneiras vazias em pleno mês de agosto.
Todo ano é a mesma coisa, gente. Como pode isso?
As cenas se repetem em cidades do litoral, como Peruíbe, no litoral sul paulista, Ubatuba no litoral norte, em municípios montanhosos como Juiz de Fora, em Minas Gerais. Casas alagadas, famílias desalojadas, comércio destruído, vidas interrompidas. E a narrativa oficial é sempre a mesma: “chuva acima da média”, “evento atípico”, “fenômeno inesperado”.
Inesperado para quem?
Meu amigo, morador de Peruíbe, perdeu tudo há dois anos. Móveis, eletrodomésticos, documentos, lembranças de uma vida inteira. Recomeçou com ajuda de vizinhos, parentes, vaquinha virtual. Agora, novamente, a água invadiu sua casa. De novo. A mesma rua. O mesmo problema. A mesma falta de drenagem adequada. A mesma ausência de obras estruturais. O que mudou de lá pra cá? A chuva voltou. O poder público, nunca chegou.
E não se trata apenas de culpar o São Pedro.
As encostas continuam sendo ocupadas, muitas vezes com autorização politica, outras vezes na omissão silenciosa de quem deveria fiscalizar. Todo mundo sabe que morro desmatado escorrega. Todo mundo sabe que várzea é caminho natural da água. Ainda assim, constrói-se, vende-se, regulariza-se depois da tragédia. A conta sempre chega, e quase nunca é paga por quem assinou o “alvará”.
Enquanto isso, milhões são despejados em shows grandiosos, eventos pirotécnicos, obras monumentais que rendem foto e palanque. Nada contra cultura, nada contra festa. Mas qual a prioridade? Mas e os piscinões? E as obras de macrodrenagem? E os sistemas de contenção? E os estudos sérios de prevenção?
Empresas públicas são privatizadas ou terceirizadas sob o discurso da eficiência. Cito aqui a Sabesp como exemplo simbólico de um debate maior: todos os anos falta água em determinados bairros, todos os anos os reservatórios viram pauta emergencial, todo ano o litoral fica seco nas férias, todos os anos a população é chamada a “economizar” em propagandas de rádio e tv. Mas onde está o investimento consistente em ampliação de rede, redução de perdas, planejamento a longo prazo?
No setor elétrico, a mesma lógica: a árvore cresce devagar, mas cresce. Todo mundo sabe que galhos encostam em fios, que temporais derrubam postes e arvores. Ainda assim, a manutenção preventiva é insuficiente. Depois do vendaval, bairros inteiros ficam dias, as vezes semanas, sem energia. A culpa? Do vento.
Transformamos previsibilidade em surpresa.
O Brasil é tropical. Chove forte no verão. Seca no inverno. Isso não é novidade científica de 2026. Isso é geografia básica. O que falta não é informação. É prioridade. É Politica Pública.
Preferimos agir na emergência porque a emergência dá visibilidade. A prevenção é silenciosa, não rende discurso inflamado, não aparece tanto nas redes sociais. Um piscinão não é tão “instagramável” quanto um palco iluminado. Uma obra de drenagem enterrada não rende a mesma curtida que um show milionário na praça central.
E assim seguimos repetindo a canção.
Quando Aldir Blanc escreveu que “o Brazil não conhece o Brasil”, talvez estivesse falando de identidade cultural, de contradições históricas. Mas hoje a frase ecoa como denúncia urbana, ambiental, administrativa. Não conhecemos, ou fingimos não conhecer , nossos próprios ciclos, nossas próprias fragilidades, nossos próprios erros recorrentes.
Chamamos de tragédia climática aquilo que, muitas vezes, é tragédia anunciada.
O Brasil conhece a chuva. Conhece a seca. Conhece o morro. Conhece o rio. O que parece não conhecer é a responsabilidade de planejar antes que a água suba, antes que a terra deslize, antes que a luz apague.
E enquanto não aprendermos isso, seguiremos cantando a mesma música — com a casa alagada ou enterrado no morro.

