O futuro é silencioso?

Colunistas Eliabe Visa

O fim de semana está chegando e São Paulo começa a entrar no clima da Fórmula 1. Em Interlagos, o ronco dos motores volta a ser protagonista. Para quem gosta de automobilismo, existe uma música particular no som dos carros acelerando, nas reduções de marcha e no barulho que acompanha cada volta no circuito.

Enquanto isso, dirigindo pelas ruas de São Paulo, comecei a pensar em outra coisa: o som do trânsito já não é o mesmo.

A movimentação dos automóveis nas cidades sempre teve uma trilha sonora. Assim como no campo e nas regiões mais interioranas, onde o canto dos pássaros faz parte da paisagem, nas grandes cidades o barulho dos motores também sempre esteve presente. Para muita gente, era até uma espécie de música.

Mas os tempos mudam. E os carros também.

Lembro de uma época em que era fácil reconhecer um automóvel à distância. Volkswagen, Ford, Chevrolet e Fiat dominavam boa parte da paisagem das ruas brasileiras. Depois vieram os japoneses, os franceses e os sul-coreanos, ampliando as opções e mudando o desenho da nossa frota.

Agora, uma nova transformação começa a ganhar espaço. BYD, GWM, Geely e tantas outras marcas chinesas aparecem cada vez mais nas ruas. Ainda não são maioria, mas já não passam despercebidas.

E não é apenas uma mudança de marcas, modelos ou desenhos. É também uma mudança de comportamento e, principalmente, de som.

Os carros elétricos são naturalmente mais silenciosos que os modelos a combustão. Não têm aquele ronco característico do motor, nem o mesmo ruído nas acelerações. Aos poucos, uma sonoridade que durante décadas acompanhou a movimentação das cidades começa a perder espaço.

Silêncio.

Em São Paulo, essa transformação também chega ao transporte público. Os ônibus elétricos começam a integrar a frota e a mudar, ainda que gradualmente, a paisagem sonora de algumas ruas e avenidas.

Não será uma mudança de uma hora para outra. Os motores a combustão ainda vão circular por muitos anos. Mas já é possível imaginar um futuro em que o trânsito das grandes cidades tenha uma sonoridade bem diferente daquela que conhecemos.

Outro dia, encontrei um modelo da Tesla circulando pelas ruas. Fiquei impressionado com o desenho futurista do carro. Parecia ter saído de algum filme que imaginava como seriam os automóveis de um futuro distante. Curiosamente, enquanto observava aquele veículo, quase não havia som que chamasse a atenção para sua passagem.

Fiquei pensando em como nossas referências também mudam. Durante muito tempo, o barulho de um motor potente despertava admiração. Na Fórmula 1, continua sendo parte do espetáculo. Mas, nas cidades, será que estamos começando a valorizar justamente o contrário?

Talvez o silêncio seja uma das próximas características da mobilidade urbana. Embora os motores possam desaparecer gradualmente da paisagem sonora, as cidades continuarão produzindo seus próprios ruídos. Buzinas, pneus no asfalto, conversas, sirenes e tantos outros sons que fazem parte da vida urbana.

Minha mania de observar as cidades e imaginar o que vem pela frente me levou a outra pergunta: quando o barulho dos motores deixar de fazer parte da rotina, sentiremos falta dele?

Neste fim de semana, Interlagos vai continuar celebrando o ronco dos motores e a paixão pela velocidade. Nas ruas de São Paulo, porém, uma outra transformação acontece quase sem fazer barulho.

Será que o futuro é silencioso?

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