
Oi, quero convidar você a um mergulho, mas não daqueles que afundamos, pois os fervedouros tem uma pressão, a qual a água jorra do lençol freático, impedindo qualquer pessoa de afundar. Esse mergulho será em águas claras, e cheias de significado, como as do Jalapão, no Tocantins, onde estive no início do mês. Foi lá que vivi uma experiência transformadora, que começou com a natureza e terminou no prato.

Nessa viagem conheci o Quilombo Mumbuca, uma comunidade formada por descendentes de povos africanos e indígenas, que foram escravizados, que resistem e mantêm viva sua cultura, saberes e tradições. Neste espaço de troca aprendi sobre o buriti, uma palmeira encontrada tanto no Cerrado quanto na região Amazônica, se destaca pela sua versatilidade, é chamada de “árvore-da-vida”. A fruta, cocos de cor marrom-avermelhado e polpa alaranjada são ricos em vitamina A e antioxidantes, transformando-se em doces, óleos, cremes e sucos. Mas não é só: as folhas cobrem casas, viram artesanato e até instrumentos musicais, como a viola de buriti que conheci no Cantinho da Viola, com o cantor e compositor Arnon.

O que me encantou foi perceber como tudo é usado de forma respeitosa, sem a ideia de deter, dominar a natureza, mas de se reconhecer como parte dela. Foi isso que o senhor Adelsinho me explicou, mostrando ao longo da trilha outras frutas como o cajuzinho- do-cerrado e o jatobá. Foi nesse momento que pensei: por que eu não conhecia a fundo essa história antes? Por que esses alimentos não estão presentes no nosso dia a dia?
Curiosamente, valorizamos mais o que veio de fora, como por exemplo a maçã que é asiática e chegou até nós por meio dos colonizadores portugueses. O trigo, os laticínios, as técnicas de confeitaria e até mesmo os utensílios usados nas refeições, moldaram a forma como comemos. Entretanto, ao mesmo tempo, deixamos de exaltar saberes e alimentos que nascem da cultura indígena e africana: a mandioca, o feijão, o buriti.

A alimentação é também um canal de preservação e valorização da nossa história. Por isso a urgência em descolonizar o prato, resgatar técnicas e conhecimentos dos povos originários e permitir que nossas raízes alimentem não só o corpo, mas também a memória e identidade. Olhar para o que colocamos à mesa é também olhar para quem somos, e talvez a alimentação mais saudável que buscamos esteja justamente nessas histórias e sabores que deixamos de valorizar.

