Os Palcos da Sobrevivência

Capa Colunistas Eliabe Visa

Hospedado próximo ao Aeroporto Santos Dumont, resolvi fazer um daqueles passeios clássicos de paulista no Rio de Janeiro.

Nada de aplicativo. Nada de pressa.

A ideia era caminhar.

Seguir a pé até a Cinelândia, admirar os teatros históricos, almoçar no tradicional Amarelinho e depois esticar a caminhada até os Arcos da Lapa.

Eu saí para observar alguns dos palcos mais famosos do Rio.

Acabei encontrando outro.

O sol batia forte na calçada. O fluxo de pedestres ditava o ritmo da tarde. Foi nesse caminho, entre cartões-postais e cenas cotidianas, que a cidade me fez desacelerar.

Ali, no chão, dividindo o mesmo cimento que meus pés cruzavam, estava um homem em situação de rua.

A mão estendida.

O gesto antigo da necessidade.

Um casal de turistas parou. Não houve o barulho frio de uma moeda lançada à distância. Eles se aproximaram e entregaram o dinheiro diretamente nas mãos dele.

— Gracias.

A palavra ecoou limpa, com o sotaque moldado em outras paragens.

O casal seguiu seu rumo.

Eu travei o passo.

Gracias.

Como aquela palavra foi parar ali?

Pausa.

A mente de quem vive catando histórias pela cidade começou a desenhar perguntas.

Seria ele um imigrante de algum país vizinho que cruzou fronteiras e encontrou o desabrigo em solo brasileiro?

Seria um brasileiro que aprendeu espanhol em outra fase da vida? Alguém que já teve profissão, endereço, rotina e planos bem definidos?

Ou teria sido a própria rua, professora dura e sem diploma, que lhe ensinou a língua do outro?

As hipóteses se multiplicavam.

Mas uma certeza se impunha.

De um jeito ou de outro, aquele homem estava pronto pra pista.

Para dialogar com o mundo que cruza o Rio, a comunicação tinha deixado de ser apenas uma habilidade. Era ferramenta de trabalho. Estratégia de aproximação. Talvez até uma forma de proteção.

Foi então que comecei a olhar ao redor com outros olhos.

Quanto alguém precisa estar preparado, afinal, inclusive para viver na rua?

O asfalto é apenas um dos cenários onde essa dinâmica acontece.

Nos cruzamentos das grandes cidades, há quem engula e cuspa fogo diante dos carros. Há quem se equilibre em um monociclo durante os poucos segundos de um sinal vermelho. Há quem faça malabarismo, pinte o rosto de palhaço ou transforme um pacote de bala em argumento de venda.

Nada daquilo surge por acaso.

Existe técnica, observação, adaptação e muito aprendizado.

Mas a reflexão vai além da rua.

A rua é apenas o palco mais visível.

O mais cru.

Sobrevivência.

Porque, no fundo, quantos de nós também não passamos o dia aprendendo novas linguagens, ajustando discursos, equilibrando responsabilidades e nos preparando para os imprevistos que chegam sem aviso?

Talvez a diferença esteja apenas no cenário.

Eu saí para conhecer os palcos da cultura carioca.

Os teatros da Cinelândia.

Os Arcos da Lapa.

A história impressa nos prédios do Centro.

Mas a apresentação que ficou na memória não estava em nenhum roteiro turístico.

Acontecia ali mesmo, na calçada.

A pergunta continua a mesma.

Até onde vai a capacidade humana de se reinventar para continuar existindo?

Não tenho as respostas.

Fico apenas com o eco daquele “gracias” e com a imagem daquele breve encontro de mãos sobre a calçada.

Um lembrete de que, por trás de qualquer cenário de invisibilidade, existem trajetórias que desconhecemos.]

Algumas marcadas por quedas.

Outras por recomeços.

Quase todas por uma impressionante capacidade de adaptação.

Porque, às vezes, sobreviver também é aprender uma nova língua.

E seguir em frente.

Mesmo quando a vida muda o palco.

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