Quando a dietachega à infância

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Por – Pryscila Souza

Recentemente, tive a honra de palestrar em um evento sobre Pisquiatria. Foi uma oportunidade de conversar com a comunidade sobre Saúde Mental e Nutrição.

É difícil encontrar uma mulher que se sinta completamente satisfeita com o corpo, uma mulher que não gostaria de mudar nada. Em um momento em que os medicamentos para tratamento do diabetes e da obesidade (as famosas “canetas”), estão sendo usados de forma indiscriminada, em que vivemos o boom das proteínas, vemos artistas cada vez mais magras e pessoas querendo performar inclusive na alimentação, crescem a culpa e a insatisfação corporal. Mas como todas essas pressões e informações afetam as crianças e os adolescentes?

Divulgada em março de 2026 pelo IBGE, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), revelou que 27,2% dos adolescentes brasileiros entre 13 e 17 anos apresentam insatisfação corporal. Entre as meninas, esse número chega a 36,1%, que se declaram insatisfeitas ou muito insatisfeitas com o corpo. Esses dados são de 2024, antes da popularização mais recente de alguns desses fenômenos que viraram assunto de almoço de domingo. Por isso, mais do que tentar prever o impacto dessas mudanças, eles nos mostram que os adolescentes e crianças estão crescendo em um ambiente em que a insatisfação corporal está cada vez mais presente.

Eu atendo crianças e adolescentes com transtornos alimentares e, nos últimos tempos, tem me chamado a atenção o quanto crianças cada vez mais novas estão apresentando quadro de anorexia nervosa. São crianças que passam a restringir severamente a alimentação, desenvolvem medo intenso de engordar e podem apresentar alterações na percepção do próprio corpo. Em alguns casos, o quadro chega a um nível de gravidade que exige internação devido ao risco clínico.

A anorexia nervosa é um transtorno psiquiátrico grave e pode trazer consequências importantes para a saúde física e mental Em crianças e adolescentes, isso ganha ainda mais atenção porque estamos falando de uma fase de crescimento e desenvolvimento. A anorexia também está associada a um risco aumentado de morte, incluindo por complicações médicas e por suicídio.

Mas de onde vem essa insatisfação? Uma criança não nasce preocupada em ter a barriga “chapada”, contar calorias ou saber o que é proteína e o quanto tem em cada alimento. Ela aprende isso a partir do ambiente que está inserida. Comentários sobre o corpo do outro ou até o próprio corpo, elogios direcionados apenas a aparência física, conteúdos nas redes sociais e a ideia que certo alimento são “bons”ou “ruins”, podem ensinar, aos poucos, que o corpo precisa ser moldado, caber a um determinado padrão.

E assim, a comida pode deixar de ser apenas comida e passa a ser vista como motivo de medo, culpa e preocupação.

Por isso, falar de alimentação na infância também significa falar sobre a forma como os adultos falam sobre comida e sobre o corpo. A criança aprende sobre alimentação não apenas pelo que é colocado no prato, mas também observando os outros comerem, ouvindo comentários e, principalmente, pela própria experiência ao comer. Comentários sobre dietas, peso e corpo podem influenciar a maneira como ela passa a enxergar a própria aparência e a se relacionar com a comida.

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