
O jornalista Eliabe Visa está de volta ao Correio Paulista, agora como cronista. Após passagem pelo jornal entre 2013 e 2016, quando assinou a coluna cultural Onde Ir e produziu reportagens sobre a cena local, ele retorna com um novo olhar.
Em Entre Linhas e Ruas, a proposta é observar o cotidiano da cidade a partir de cenas simples — muitas vezes invisíveis na correria — para revelar os contrastes que marcam a vida urbana.
Na crônica de estreia, “Sobre o tamanho (e a quantidade) dos leões”, o autor parte de uma manhã comum na Marginal Tietê para refletir sobre as diferentes realidades que coexistem sob a mesma chuva.
“Matar um leão por dia” virou expressão comum. Repetimos a frase quase sem perceber, como quem aceita o peso da rotina sem questionar a anatomia da fera.
Mas a metáfora é incompleta.
Na vida real, não é apenas o tamanho do leão que muda — é, sobretudo, a quantidade.
A reflexão me encontrou em uma manhã comum na Marginal Tietê. Garoa fina, trânsito travado e o limpador de para-brisa marcando o tempo — um compasso silencioso da pressa urbana.
Dentro do carro, o conforto possível: ar-condicionado ajustado, banco alinhado e a trilha sonora escolhida. Eu seguia para o trabalho protegido por pensamentos positivos e clichês de bolso. “Deus ajuda quem cedo madruga”, repetia a voz interna.
Foi quando olhei para o lado.
Entre os carros fechados, sob a chuva insistente, um homem atravessava o corredor estreito do asfalto. No corpo, o peso do próprio sustento. Garrafas de café pendiam do pescoço como medalhas de uma guerra invisível; nas mãos, copos de diferentes tamanhos.
Não havia janelas abertas — havia tentativas.
Gestos repetidos.
Insistência.
A cada sinal de atenção, uma possibilidade. A cada vidro fechado, o silêncio.
Estávamos sob a mesma chuva, mas em realidades opostas.
Não sei seu nome. Poderia ser Silva. Poderia ser qualquer um desses rostos que mantêm a engrenagem da cidade girando sem nunca herdar o lucro.
Enquanto eu pensava em produtividade, ele calculava a sobrevivência. Enquanto o meu desafio era cumprir horários, o dele era vencer o dia — antes que o dia o vença.
Ali, a metáfora do leão perdeu o conforto.
Todos nós enfrentamos feras diariamente, é verdade.
Mas há uma diferença cruel na arena: alguns encaram um animal por vez, com hora marcada para começar e terminar, protegidos pelo vidro e pelo aço.
Outros enfrentam vários leões de uma vez.
Ao mesmo tempo.
Sob a chuva.
Sem garantia de descanso.
No fim, não se trata apenas de reconhecer que a vida é difícil.
Trata-se de entender que, para quem está na pista, ela é mais pesada, mais urgente — e, muitas vezes, invisível.

