
As mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção futura para se tornarem uma realidade presente. Ondas de calor mais intensas, períodos de seca prolongados e eventos extremos já fazem parte do cotidiano — e seus efeitos vão muito além do meio ambiente. Eles atingem diretamente a saúde humana, especialmente dos grupos mais vulneráveis: idosos e crianças.
Essas populações compartilham uma característica importante: menor capacidade de adaptação às variações ambientais. No caso dos idosos, o envelhecimento reduz a eficiência dos mecanismos de regulação térmica, aumenta a prevalência de doenças crônicas e, muitas vezes, limita a percepção da sede. Já nas crianças, o organismo ainda está em desenvolvimento, com maior sensibilidade às alterações de temperatura e maior risco de desidratação.

O aumento das temperaturas globais tem impacto direto sobre o sistema cardiovascular. Ondas de calor estão associadas ao aumento de internações e mortalidade por doenças cardíacas e cerebrovasculares, especialmente em idosos. O esforço do corpo para dissipar calor pode sobrecarregar o coração, agravando quadros já existentes.
No sistema respiratório, a combinação entre calor e poluição atmosférica agrava doenças como asma e bronquite, com impacto significativo em crianças. A qualidade do ar, cada vez mais comprometida em grandes centros urbanos, favorece inflamações crônicas e aumenta a procura por atendimentos de urgência.
Outro aspecto frequentemente subestimado é o risco de desidratação. Em idosos, ela pode se manifestar de forma silenciosa, levando a confusão mental, quedas e piora do estado geral. Em crianças, a evolução pode ser mais rápida, exigindo atenção constante dos cuidadores.

As mudanças climáticas também influenciam a dinâmica de doenças infecciosas. A expansão de vetores, como mosquitos, amplia a circulação de doenças como dengue, zika e chikungunya, afetando especialmente populações com maior fragilidade imunológica.
Além dos efeitos físicos, há impactos indiretos importantes. A insegurança alimentar, associada a eventos climáticos extremos, pode comprometer o desenvolvimento infantil e agravar condições de saúde em idosos. O estresse térmico e as mudanças no ambiente também afetam o sono, o bem-estar e a saúde mental.
Diante desse cenário, é fundamental compreender que o cuidado com a saúde precisa acompanhar as transformações do clima. Medidas simples — como manter hidratação adequada, evitar exposição nos horários de maior calor, garantir ambientes ventilados e acompanhar de perto crianças e idosos — tornam-se estratégias essenciais de proteção.
Mais do que um tema ambiental, as mudanças climáticas representam um desafio crescente para a medicina e para a sociedade. E, nesse contexto, proteger os mais vulneráveis é uma responsabilidade coletiva.
Dra. Simone Neri
Médica Dermatologista

