As cidades que aprendi a ler

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Por – Eliabe Visa

Talvez eu tenha começado a entender as cidades antes mesmo de aprender a viajar.
Nasci em Osasco.
E Osasco, para mim, nunca foi apenas o lugar onde nasci. Foi minha primeira aula de geografia.
Vista no mapa e vivida nas ruas, sempre me pareceu uma cidade de sentido vertical, organizada entre norte e sul. Uma cidade atravessada ao meio por duas linhas que não são apenas linhas: o Rio Tietê e a ferrovia.
O rio corta.
O trem atravessa.
E entre uma margem e outra, entre um lado e outro dos trilhos, a cidade foi aprendendo a se reconhecer.
Talvez tenha sido ali que comecei a perceber que uma cidade não é apenas um conjunto de ruas, bairros e endereços. Existe uma lógica invisível que organiza os deslocamentos, cria referências e ensina as pessoas a dizer onde estão.
Desde pequeno, eu gostava de geografia, de mapas, de localização, de bússolas e de tudo aquilo que pudesse responder a uma pergunta aparentemente simples:
Onde estou?
Norte.
Sul.
Leste.
Oeste.
Com o tempo, a pergunta ficou mais interessante.
Porque, quando comecei a conhecer outras cidades, percebi que cada uma delas tinha encontrado uma maneira própria de responder.
Foi assim que meu gosto pela geografia virou também uma forma de olhar.
Passei a estudar a geolocalização das cidades que visitava. Não apenas para saber suas coordenadas, mas para entender como elas se organizavam, como as pessoas se orientavam e quais referências faziam uma cidade ser reconhecida por quem vive nela.
Foi quando percebi que nenhuma cidade é apenas um ponto no mapa.
Cada uma possui uma linguagem própria para dizer onde está.
Saí de Osasco e entrei em São Paulo.
E descobri que a cidade vizinha precisava de mais direções.
São Paulo é tão grande que os quatro pontos cardeais parecem não dar conta de tudo. Norte, sul, leste e oeste continuam existindo, claro. Mas a dimensão da cidade fez nascer outras maneiras de dizer onde alguma coisa está.
Há Norte 1 e Norte 2. Leste 1 e Leste 2. Sul 1 e Sul 2. Há Centro, Oeste e outras subdivisões que ajudam a organizar uma cidade que parece crescer para todos os lados.
É como se São Paulo tivesse criado direções entre as direções.

E talvez essa seja uma de suas primeiras lições: quando uma cidade cresce demais, quatro pontos já não bastam.
A gente passa a se localizar pela avenida, pela marginal, pelo bairro, pela estação, pela ponte, pelo shopping, pelo lugar onde determinada linha de ônibus termina.
Em São Paulo, às vezes, você não pergunta apenas para onde está indo.
Pergunta de que lado está.
E de que lado fica o lugar para onde você quer chegar.
No Rio de Janeiro, a geografia parece mais visível.
A cidade se apresenta em Zona Norte, Zona Sul, Zona Oeste e Centro. Não existe uma Zona Leste na divisão urbana tradicional.
E isso, para quem gosta de geografia, é uma dessas pequenas particularidades que dizem muito.
Porque o leste não desapareceu.
Ele encontrou a água.
O Centro está na porção oriental do município e guarda o núcleo histórico da cidade. Mais adiante, em direção ao leste, está a Baía de Guanabara — e, do outro lado dela, Niterói.

No Rio, a natureza interfere diretamente na maneira como a cidade se orienta.
O mar.
A baía.
Os morros.
Os túneis.
As praias.
As zonas.
Tudo parece funcionar como uma grande legenda urbana.
Se São Paulo precisou multiplicar suas direções para dar conta do tamanho, o Rio deixa a própria paisagem participar da bússola.
Salvador faz outra coisa.
Salvador troca direção por altura.
Ali, os pontos cardeais existem, mas não são o principal código de orientação cotidiana. A cidade se explica muito mais pela relação entre Cidade Alta e Cidade Baixa, entre Orla e Miolo, entre subir e descer.
Em Salvador, a geografia não está apenas diante dos olhos.
Está nos pés.
Está na ladeira.
Está no elevador.
Está na descida.
Está na subida.
A Cidade Baixa se aproxima do mar e da Baía de Todos-os-Santos. A Cidade Alta se espalha sobre os espigões e colinas onde se consolidou boa parte da cidade histórica.
E quando alguém diz que vai para a Orla, para o Miolo, para a Baixa ou que precisa subir, não está apenas indicando uma direção.
Está desenhando a cidade no ar.
Natal talvez seja uma das cidades que mais conversa diretamente com a bússola.
Zona Norte.
Zona Sul.
Zona Leste.
Zona Oeste.
Ali, os pontos cardeais estão no vocabulário cotidiano.
Mas, como quase sempre acontece quando a natureza resolve participar da conversa, não são suficientes sozinhos.
O Rio Potengi ajuda a dividir a cidade e cria uma das referências mais fortes para quem vive nela: o lado de cá e o lado de lá.
Para chegar à Zona Norte, é preciso atravessar a ponte.
E a ponte deixa de ser apenas uma obra de engenharia para se transformar em uma espécie de fronteira imaginária.
A Zona Sul se associa à expansão urbana, ao turismo, à universidade, a Ponta Negra e ao Morro do Careca.
A Zona Leste guarda o Centro histórico, Ribeira, Cidade Alta e antigas áreas urbanas próximas ao mar.
A Zona Oeste se espalha por bairros populares e áreas residenciais que se afastam do litoral.
E, atravessando tudo isso, a Via Costeira costura a cidade junto ao mar.
Em Natal, os pontos nomeiam.
O rio explica.
E o oceano dá sentido.
Talvez seja por isso que a geografia, ali, pareça menos uma ciência e mais uma conversa cotidiana.
Vitória me apresentou outra forma de pensar a localização.
Uma cidade que não se entende apenas pela direção, mas pela relação entre pedaços.
Ilha.
Continente.
Baía.
Morro.
Terra.
Água.
Vitória se constrói nessa conversa entre espaços que se aproximam e se separam pela própria geografia.
Às vezes, a pergunta não é “em que direção fica?”.
É:
De que lado da baía?
Na ilha ou no continente?
Subindo ou descendo?
E talvez seja isso que torna Vitória tão interessante para quem observa cidades: nela, a paisagem não está apenas ao redor da cidade.
Ela participa da maneira como a cidade é compreendida.
Em Florianópolis, a primeira pergunta parece ainda mais básica:
Ilha ou continente?
A cidade se organiza entre essas duas condições. E, depois dessa primeira resposta, entram as outras.
Centro.
Norte.
Sul.
Leste.
A organização territorial atual do município distingue as regiões Central, Continental, Norte da Ilha, Sul da Ilha e Leste da Ilha.
No território insular, cada direção parece carregar uma personalidade própria.
O Norte reúne praias como Canasvieiras, Jurerê e Ingleses, áreas fortemente associadas ao turismo e à expansão urbana.
O Sul conduz a outras paisagens, como Campeche, Pântano do Sul e Ribeirão da Ilha, onde ainda se percebem marcas de uma Florianópolis mais ligada à pesca, à tradição e à paisagem preservada.
O Leste encontra Lagoa da Conceição, Praia Mole, Joaquina e Barra da Lagoa — onde natureza, surf e vida noturna se misturam.
E o Centro concentra o núcleo histórico, a Beira-Mar Norte, a região da Trindade e da UFSC, além de funcionar como importante ponto de conexão.
Até as estradas parecem obedecer à bússola.
A SC-401 leva ao Norte.
A SC-405 conduz ao Sul.
A SC-404 atravessa o caminho para o Leste.
Em Florianópolis, a direção vira estrada.
A bússola vira trânsito.
E a geografia deixa de ser aquilo que está desenhado no mapa para se transformar naquilo que você sente quando está preso no caminho para a praia.
Foi em Curitiba que encontrei talvez a forma mais literal dessa relação entre orientação e cidade.
Ali, a bússola quase virou urbanista.
Curitiba cresceu apoiada em eixos estruturais que ajudaram a organizar seu desenvolvimento. O eixo Norte-Sul liga Santa Cândida a Pinheirinho. O eixo Leste-Oeste conecta regiões como Capão da Imbuia e Cajuru ao Campo Comprido.
E há o sistema trinário, com o transporte coletivo ocupando o eixo central e as vias de tráfego distribuídas ao redor.

É como se alguém tivesse pegado uma rosa dos ventos, colocado sobre a cidade e perguntado:
E se a gente construísse a cidade seguindo essas linhas?
Curitiba respondeu construindo.
Ali, os pontos cardeais não são apenas uma forma de localização.
São parte do desenho urbano.
São movimento.
São transporte.
São crescimento.
São caminho.
Depois de conhecer tantas cidades, comecei a perceber que aquilo que eu procurava desde criança talvez nunca tenha sido simplesmente o norte.
Eu procurava a lógica.
A lógica que faz alguém dizer “vou para o Norte” em Natal.
“Vou para a Zona Sul” em São Paulo ou no Rio.
“Vou descer para a Baixa” em Salvador.
“Vou atravessar a ponte” em Florianópolis ou Natal.
“Vou para o outro lado da baía” em Vitória.
“Vou pegar o eixo” em Curitiba.
Ou simplesmente:
“É depois da linha do trem.”
Como aprendi em Osasco.
Talvez seja isso que mais me fascina nas cidades.
Elas não são apenas lugares que ocupamos.
São lugares que aprendemos a ler.
Cada cidade escolhe suas próprias referências.
Algumas se orientam pelo mar.
Outras pelo rio.
Pelo morro.
Pela ponte.
Pelo trilho.
Pela avenida.
Pelo bairro.
Pela altura.
Pela zona.
Pelo lado de cá.
Pelo lado de lá.
E nós, habitantes e visitantes, aprendemos esse idioma sem perceber.
Foi assim que a geografia entrou na minha vida.
Primeiro, pelo mapa.
Depois, pela rua.
Mais tarde, pelas viagens.
E, finalmente, pelas pessoas.
Porque uma cidade só está realmente localizada quando alguém consegue dizer onde ela está.
Não no mapa.
Na memória.
Hoje, quando chego a uma cidade nova, continuo procurando o norte.
Mas já não espero encontrar o norte apenas na bússola.
Procuro o que aquela cidade escolheu como seu próprio norte.
O rio.
O mar.
O morro.
A ponte.
O trilho.
A avenida.
O centro.
A esquina.
Talvez porque, depois de tantas cidades, eu tenha entendido uma coisa que nenhum mapa conseguiu me ensinar:
lugar não é apenas uma coordenada.
Lugar é a maneira como alguém aprendeu a não se perder.
E talvez seja por isso que eu continue olhando mapas.
Porque, no fundo, toda cidade está tentando responder à mesma pergunta que me acompanha desde menino:
onde estamos?
Cada uma responde de um jeito.
E é justamente aí que começa a viagem.

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