Por Helena Custódio — Sou Gordinha Sim
No dia 10 de setembro, lembrado como o Dia do Gordo e também como uma data de conscientização contra a gordofobia, não quero falar apenas sobre peso. Quero falar sobre respeito, dignidade e o direito que toda pessoa tem de existir sem ser julgada pelo formato do seu corpo.
Comecei uma publicação com uma brincadeira. “Em meio a tanto Mounjaro, daqui a pouco acho que serei a única gorda do Brasil”. Mas depois falei sério e convidei outras mulheres gordas e gordinhas a compartilharem situações de preconceito que já viveram. Faz quase uma hora que publiquei esse post no instagram.
Recebi muitos comentários e os comentários mostram uma realidade dolorosa, a gordofobia ainda está presente na escola, nos relacionamentos, no trabalho, nas lojas, nos eventos, nas ruas e até nos consultórios médicos.

O que é gordofobia?
Gordofobia é o preconceito, a discriminação ou a exclusão de uma pessoa por causa do seu peso ou do formato do seu corpo.
Ela aparece nas piadas, nos apelidos, nos olhares, nos comentários que ninguém pediu e nas frases disfarçadas de preocupação. Também aparece quando uma pessoa gorda é tratada como se fosse menos bonita, menos capaz, menos disciplinada ou menos merecedora de respeito.
Às vezes, a violência vem escondida em frases como:
- “Você tem um rosto tão bonito, por que não emagrece?”
- “Essa roupa não é para o seu corpo.”
- “Se você emagrecer, vai ficar linda.”
- “Tudo o que você sente é por causa do seu peso.”
- “Você não tem vergonha de comer isso?”
Essas palavras podem parecer pequenas para quem fala, mas deixam marcas profundas em quem escuta.
Os relatos mostram que não é exagero
Uma seguidora contou que procurou um ginecologista com todos os exames prontos. O médico nem abriu o envelope, apenas olhou para ela e disse que voltasse quando emagrecesse. Ela foi buscar cuidado e encontrou preconceito.
Outra contou que se formou em estética e enfrentou desconfiança porque acreditavam que uma profissional da área deveria ser magra. Só depois de conhecerem seu trabalho passaram a enxergar sua competência.
Também apareceram histórias de mulheres que foram humilhadas dentro da própria família, julgadas em relacionamentos, afastadas de oportunidades profissionais, vítimas de bullying na escola e constrangidas em locais públicos.
Uma delas disse que está evitando até sair de casa porque as pessoas não param de comentar que ela engordou. Isso mostra que a gordofobia não fica apenas na fala, ela pode tirar a liberdade, a autoestima e a vontade de viver momentos simples.
Saúde não pode ser desculpa para humilhação
Falar sobre respeito ao corpo não significa dizer que os cuidados com a saúde não são importantes. Significa entender que toda pessoa merece atendimento completo, escuta e tratamento digno, independentemente do peso.
Uma pessoa gorda pode procurar um médico por diferentes motivos e tem o direito de ser examinada. Reduzir qualquer queixa ao peso, sem investigar, não é cuidado.
Cada mulher conhece sua história, suas lutas e as necessidades do próprio corpo. Algumas desejam emagrecer, outras não. Algumas fazem tratamento por questões de saúde. Outras estão aprendendo a se amar depois de muitos anos de rejeição. Nenhuma delas deveria ser ridicularizada ou diminuída por suas escolhas.
A moda também precisa incluir
A gordofobia também está na dificuldade de encontrar roupas bonitas, atuais e confortáveis em tamanhos maiores.
Durante muito tempo, disseram às mulheres gordas que elas deveriam se esconder em peças largas, escuras e sem estilo. Mas a moda é uma forma de expressão e deve servir a todos os corpos.
Uma mulher plus size pode usar cor, estampa, vestido justo, jeans, brilho, decote ou o que fizer sentido para ela. Ela não precisa esperar emagrecer para se arrumar, tirar fotos, participar de uma festa, ir à praia ou se sentir bonita.
Foi por acreditar nisso que construí minha trajetória no universo plus size. Como mulher gorda, modelo, influenciadora e mentora de lojistas, sei que uma roupa que realmente veste pode representar muito mais do que uma venda. Ela pode devolver confiança, alegria e o desejo de voltar a se olhar com carinho.
Nosso corpo não define nossa capacidade
Uma das formas mais cruéis da gordofobia é fazer a mulher acreditar que ela precisa provar o tempo todo que é competente.
O peso não determina inteligência, caráter, talento, profissionalismo e capacidade de amar e ser amada. Mulheres gordas podem liderar, empreender, ensinar, dançar, praticar atividades físicas, trabalhar com beleza, ocupar cargos importantes e realizar seus sonhos.
Não devemos depender da aprovação das pessoas para reconhecer o nosso valor.
O que podemos fazer contra a gordofobia?
O primeiro passo é parar de tratar o corpo dos outros como assunto público. Antes de comentar sobre o peso de alguém, precisamos pensar: essa pessoa pediu minha opinião?
Também precisamos:
- Ter mais palestras em escolas sobre esse tema
- parar de compartilhar piadas sobre pessoas gordas;
- não usar palavra “gorda” como ofensa;
- ensinar as crianças a respeitarem todos os corpos;
- acolher quem relata uma situação de preconceito;
- cobrar atendimento digno em consultórios, lojas e espaços públicos;
- apoiar marcas que trabalham com inclusão verdadeira;
- denunciar humilhações e discriminações.
Combater a gordofobia não é dizer que todas as pessoas precisam pensar da mesma forma sobre o próprio corpo. É defender que todas sejam tratadas com humanidade.
Você não está sozinha
Ao ler tantos relatos, percebi novamente como é importante criar espaços seguros para conversar. Muitas mulheres carregam dores antigas e nunca tiveram a oportunidade de falar sem serem julgadas.
Se você já sofreu preconceito por causa do seu corpo, quero que saiba: a culpa não foi sua. Você não precisa aceitar humilhação para ser amada, atendida, respeitada ou incluída.
Neste Dia do Gordo, deixo um convite: vamos trocar o julgamento pelo acolhimento. Vamos ensinar pelo exemplo que nenhum corpo deve ser motivo de piada, vergonha ou exclusão.
Nosso corpo merece respeito, não opinião.
E a nossa voz merece ser ouvida.
Você já sofreu gordofobia? Compartilhe sua história nos comentários. Vamos conversar com acolhimento, respeito e sem julgamentos. Você não está sozinha.
Publicação feita no perfil @sougordinhasimoficial, que abriu espaço para mulheres compartilharem experiências de gordofobia com acolhimento e respeito.

