
Toda cidade tem seus pontos de referência. Alguns aparecem nos mapas; outros, a gente aprende com a vida. Em Osasco, durante minha infância, um deles tinha água, duas esculturas e um nome que sempre me pareceu curioso: Fonte da Insinuação.
Quando comecei a ir sozinho ao centro, sem a companhia dos meus pais ou dos meus irmãos mais velhos, minha mãe me ensinou a reconhecer o momento de descer do ônibus. Era só acompanhar o trajeto pela Primitiva Vianco, esperar a rotatória e procurar a fonte. Quando ela aparecesse, era hora de dar sinal.
E eu descia.
Naquele tempo, a fonte era mais do que um monumento no Largo de Osasco. Era uma referência que me ajudava a encontrar o caminho e, aos poucos, conquistar minha liberdade. Eu talvez não soubesse, mas começava ali a construir meu mapa afetivo da cidade.
A vida seguiu. Anos depois, voltei àquele lugar com uma câmera nas mãos, durante uma aula de fotografia ministrada por Reinaldo Vaz, fotógrafo osasquense que também trabalhou com o prefeito Celso Giglio. Fiz alguns cliques por ali. Reinaldo tinha um talento especial para retratar pessoas. Fico imaginando quantas histórias ainda sobrevivem nas fotografias que deixou com a família, quantos rostos e momentos de uma cidade que já não existe exatamente como antes.
Porque a cidade muda. Às vezes, muda tão discretamente que a gente só percebe quando procura alguma coisa e descobre que ela já não está lá.
Depois da reforma do Largo de Osasco, a fonte deixou de existir naquele espaço. O casal que fazia parte do monumento foi retirado e, durante alguns anos, ficou exposto no terreno onde funcionam a Escola de Artes e a Biblioteca Municipal, na Avenida Marechal Rondon. Mais recentemente, as esculturas ganharam um novo endereço, na fachada renovada do prédio que abriga a Secretaria Municipal de Cultura.
O casal permaneceu. O cenário mudou.
E quantas coisas na vida não são assim? A gente muda de casa, de bairro, de trabalho. Os lugares que frequentamos ganham outras formas, os caminhos se modificam e aquilo que parecia fazer parte da paisagem para sempre acaba desaparecendo. Mas basta um detalhe, uma imagem ou um reencontro inesperado para que o passado volte a ocupar o presente.
Memória.
Recentemente, compartilhei essa lembrança no podcast Você Faz Osasco Brilhar, apresentado por Simone Soares. Com seu programa, ela vem resgatando histórias de pessoas que nasceram em Osasco, vivem aqui ou escolheram a cidade para chamar de sua. São memórias que ajudam a contar a história do município por meio de quem o viveu — e continua vivendo.
Talvez seja por isso que eu goste tanto de reencontrar aquele casal. A fonte já não existe como a conheci, e o Largo de Osasco também mudou. As esculturas ganharam outra casa, outra paisagem e novos olhares. Eu, por minha vez, reencontro nelas um pedaço da cidade em que cresci.
Minha mãe dizia que, quando o ônibus fizesse a rotatória e a fonte aparecesse, era hora de descer.
Hoje, são as esculturas daquele casal que me fazem voltar àquele menino. A fonte ficou no passado, mas a lembrança continua ali, inteira, mesmo que tudo ao redor tenha mudado.

