A desigualdade racial no Brasil e os impactos na saúde da população negra

Colunistas Dra. Wal Torres

No Brasil, apesar de não haver um cruzamento de dados oficiais pelo Estado que permita uma análise de estatística oficial, as notícias dos jornais já demonstram desde o início da propagação do COVID–19, que a população negra sofreria severamente os impactos da pandemia e seus vários aspectos negativos, considerando o histórico de ausências de direitos.

Para além desse quadro de saúde enfrentado pela população negra no Brasil, é preciso discutir a sua distribuição no espaço geográfico das grandes metrópoles nacionais, que são marcadas fortemente pela segregação residencial racial, onde uma parte da população negra reside às margens, nas periferias das cidades, nas piores condições de saneamento básico e de sistema de saúde.

A separação cria condições adversas à saúde, pois, historicamente, os locais onde essa parcela da população se fixa são precários, com moradias inadequadas em relação às condições estruturais, sem acesso a serviços básicos de saneamento, água potável, equipamentos de saúde, à exemplo de postos de saúde, farmácias, parques e espaços de recreação, contribuindo para a maior exposição a fatores de risco, além dos elevados índices de violência, resultando no acúmulo de agravos à saúde. Vale ressaltar que segregação residencial racial é uma causa fundamental de desigualdades raciais em saúde, pois é uma das principais causas das diferenças em relação ao status socioeconômico, que determina o acesso à educação, emprego e oportunidades.

Aliado a isso, o racismo também condiciona a adoção de medidas preventivas para COVID-19 e outras doenças, tais como diabetes e hipertensão. Considerando que o distanciamento social, a principal medida elencada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), não é um privilégio de todos, em especial no Brasil, onde pretos e pretas representam a maioria dos trabalhadores informais, de serviço doméstico, comercial, da alimentação, transporte, armazenamento e correio, que se mantiveram ativos, mesmo durante a pandemia. Em números absolutos, oito entre dez mortos por COVID-19 são de membros da população negra, segundo a Análise de Agência Pública, o que por si só já demonstra quem são os mais vulneráveis.

A higienização das mãos, outra medida preventiva para COVID-19 recomendada no primeiro semestre de 2020, é muitas vezes difícil de executar, visto que, em muitas moradias, em diversas regiões do país, não há acesso a água e saneamento básico, como mencionado anteriormente.

Para população negra, o cenário da pandemia se associa às condições desiguais determinadas pelo racismo estrutural e institucional, visto que ela tem menos acesso aos serviços de saúde e está em maior proporção entre as populações vulneráveis, que secularmente vivenciam a ausência do Estado em seus territórios. A pandemia faz saltar aos olhos o quanto o Brasil é um país desigual e pouco avançou na superação do racismo. No entanto, para conter a expansão da pandemia no país e dar o próximo passo, será preciso, em primeiro lugar, enfrentar o racismo e as desigualdades, porque, além de tudo, a população negra representa mais da metade da população brasileira.

É certo que a luta contra o racismo se estende para todas as demandas da sociedade e, de forma alguma, está restrita aos problemas atuais da pandemia do novo coronavírus, mas esse imenso desafio sanitário é o começo para uma reflexão mais profunda sobre como as estruturas racistas do nosso país fazem com que o problema de um se torne o problema de todos. Se não agirmos nos solidarizando com a população negra, e com as comunidades mais carentes, estaremos mais distantes de superar essa Pandemia.

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