A prevenção voltou a ser protagonista

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Por – Dra. Simone Neri

Durante muito tempo, falar de saúde era falar de hospitais, exames, cirurgias e medicamentos. A população passou a associar o cuidado apenas ao momento em que a doença já estava instalada. No entanto, uma mudança silenciosa vem acontecendo no Brasil: a prevenção voltou a ocupar o lugar que nunca deveria ter perdido.

Essa mudança representa muito mais do que uma nova estratégia do Ministério da Saúde. Ela resgata a essência do Sistema Único de Saúde (SUS), criado há quase quatro décadas com um princípio simples, mas transformador: cuidar das pessoas antes que elas adoeçam.

A experiência mostra que nenhum sistema de saúde consegue ser sustentável investindo apenas no tratamento das doenças. O verdadeiro avanço acontece quando a prevenção passa a ser prioridade. Afinal, prevenir significa evitar sofrimento, preservar vidas, reduzir internações e utilizar os recursos públicos de forma mais inteligente.

Não por acaso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a Atenção Primária à Saúde o eixo central dos sistemas de saúde mais eficientes do mundo. Quando fortalecida, ela é capaz de resolver a grande maioria das necessidades de saúde da população, evitando que milhares de pessoas precisem de atendimentos hospitalares de maior complexidade.

Nos últimos meses, o Ministério da Saúde anunciou importantes avanços nessa direção.

Um dos destaques foi a incorporação da vacina Pneumo 20 ao calendário do SUS. O novo imunizante amplia a proteção contra 20 sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae, responsável por doenças graves como pneumonia, meningite, otite e infecções generalizadas. Inicialmente destinada às crianças menores de cinco anos e a grupos especiais, a vacina representa um importante avanço na proteção da população mais vulnerável.

Outro exemplo é a ampliação da campanha nacional contra o Papilomavírus Humano (HPV). O Ministério da Saúde prorrogou até o final do ano a vacinação para adolescentes e jovens entre 15 e 19 anos que ainda não haviam sido imunizados. O objetivo é alcançar milhões de brasileiros que perderam a oportunidade de vacinação na idade recomendada, protegendo-os contra diversos tipos de câncer relacionados ao vírus, especialmente o câncer do colo do útero, além de tumores de boca, garganta, pênis, vulva e ânus.

Essas ações demonstram uma mudança importante de visão. Em vez de esperar que a doença apareça para então tratá-la, investe-se em impedir que ela aconteça.

E não estamos falando apenas de vacinação.

Prevenção também significa acompanhar a gestante durante todo o pré-natal, controlar a pressão arterial e o diabetes antes que provoquem infartos ou acidentes vasculares cerebrais, incentivar hábitos saudáveis, orientar sobre alimentação, atividade física, saúde mental e realizar exames capazes de identificar doenças em seus estágios iniciais.

Os números reforçam essa necessidade.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, as doenças crônicas não transmissíveis são responsáveis por cerca de 74% das mortes no mundo. Hipertensão, diabetes, câncer e doenças cardiovasculares compartilham um aspecto em comum: muitas vezes evoluem silenciosamente durante anos e poderiam ser prevenidas ou controladas quando identificadas precocemente.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima aproximadamente 704 mil novos casos de câncer por ano no triênio mais recente, sendo que muitos dos tipos mais frequentes apresentam altas chances de cura quando diagnosticados precocemente, como os cânceres de mama, colo do útero, intestino e pele. Esse dado reforça que investir em rastreamento e diagnóstico oportuno salva vidas e reduz tratamentos complexos e onerosos.

É justamente nesse ponto que a Atenção Primária demonstra toda a sua força.

A Unidade Básica de Saúde deixou de ser apenas o local onde se recebe uma receita ou uma vacina. Hoje, ela representa a principal porta de entrada do SUS e um espaço estratégico para promoção da saúde, prevenção de doenças, acompanhamento contínuo e educação em saúde.

Cada consulta realizada, cada vacina aplicada, cada exame preventivo solicitado e cada orientação fornecida podem evitar complicações futuras.

Como médica atuando diariamente na Atenção Primária, testemunho o quanto essa realidade faz diferença. Muitas vezes, uma simples avaliação clínica realizada no momento certo permite identificar uma doença ainda em fase inicial, quando o tratamento é menos agressivo, mais eficaz e oferece maiores chances de cura.

Capacitar profissionais, utilizar novas tecnologias, fortalecer o trabalho em equipe e aproximar o conhecimento especializado das Unidades Básicas são investimentos que multiplicam oportunidades de diagnóstico precoce e ampliam a resolutividade do SUS.

A prevenção também faz sentido do ponto de vista econômico.

Cada internação evitada representa menos custos para o sistema público, menos afastamentos do trabalho, menor impacto para as famílias e, principalmente, mais qualidade de vida para quem permanece saudável. O melhor investimento em saúde continua sendo aquele que impede que a doença aconteça.

Vivemos um momento muito positivo da saúde pública brasileira. O fortalecimento das campanhas de vacinação, a incorporação de novas tecnologias, a valorização da Atenção Primária e o incentivo ao diagnóstico precoce mostram que estamos retomando um caminho já comprovado pela ciência: cuidar antes é sempre melhor do que remediar depois.

Talvez o maior desafio da saúde do século XXI não seja construir mais hospitais, mas fazer com que cada brasileiro compreenda que saúde não começa na emergência. Ela começa em casa, nos hábitos diários, na prevenção, na vacinação, nos exames de rotina e na confiança depositada nas equipes da Atenção Primária.

Porque, no fim das contas, o maior sucesso da medicina não é tratar uma doença. É evitar que ela aconteça

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